segunda-feira, 9 de setembro de 2013

fazemos amor como loucos
é uma loucura, o nosso amor
ouvi ou li que só os loucos amam
os outros não desmancham e cama
e nunca engelham os lençóis

meu sonho

meu sonho, sempre grande
enquanto aprendia as letras sonhava
com irreconhecitude da minha caligrafia de adulto
enquanto aprendia a ler sonhava
com grandes públicos atentos
enquanto aprendia as outras matérias sonhava-me
mestre nas habilidades científicas, literárias e artísticas
...
enquanto escrevo um poema, sonho
com o convívio das nossas fantasias
enquanto escrevo um poema, sonho a fantasia
e por ele distendo meu sonho entre o aqui e o de lá

chove lá fora
pois, deixa chover
o sol cá de dentro espelhará
na chuva que sempre tropeça
nessa vidraça
e escorre pelo olhar, brilhando
ente o reencontro e a despedida

a ansiedade

tem um corte fatiado
fininha, meticulosa
insistente, persistente e fria
fria até aos suores; frios também
rói, moi, corroi
de um vazio transparente e solene
aloja-se entre os dentes cerrados
no franzido do rosto
no lado apertado do corpo
contraído até ao estalido
no estado dorido
da ansiedade

consome o bom dia
amarelece o sorriso
cheiro frio a perfeição
do mofo organizado
o mais perfeito pecado
a ansiedade

domingo, 8 de setembro de 2013

hoje quero meu dia botando fogo
fogo de língua
fogo de labareda
fogo de sol quente
tudo fogo amarelo, vermelho, luminoso
fogo quente de verão
hoje quero meu dia assim
enquanto eu sinto o fresco
do verde do meu jardim

sábado, 7 de setembro de 2013

mealheiro de rios

havia no mealheiro
o necessário para ter um rio
daqueles que chapinam, que nos ouvem
que se fazem ouvir e falamos
um rio rico e brilhante de prata bem limpa
um rio amigo que correria comigo até ao mar

naquele mealheiro eu guardava,
o sonho que sempre recordava
a cada moeda que lá amealhava

havia naquela mealheiro
o necessário para ser rio

tinha tanto de morte em mim que a vida se mudou por falta de espaço e eu morri.
equilibrei as as coisas, enxotei a morte, a vida regressou e fui renascendo.
então renasci.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

cumplicidade

pesquei um poema espelhado
no rio que te banhava
há tanto tempo que não desamo de ti
cintilou o rio
eu escrevi

traço de poesia

desenhei-te em traço de poema
vi-te à essência de ti mesma
envolvi-te em fantasia
daquela que me insinuaste
e te soltaste um beijo
um olhar
um sorriso
um abraço
um aceno
uma flor
...
tanto faz
ser-me-ás poesia

um desejo

tivera eu
um beijo teu
que o dia seria meu
o estardalhaço que faria, eu

fantasia

é frágil a vidraça da minha janela
por ela viajam os sonhos
ainda que feche as portadas
e tenha as cortinas cerradas

rio

o rio
para onde rio
riou-nos
sorrimos
as rimas
que rimos
tu ria(s)
eu ria
ainda rio
na beira do rio

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

dia

dia de tirar a respiração
inspiramos, inspiramos
queremos tudo, tudo dele
e guardarmos, bem para nós
soltos no suspiro
duma memória doce do horizonte

a luz que era da vela
fez a vela ser da luz
de outro modo não se veriam
uma e outra se pertenciam

minha alma bastarda seduz,
seduzida que vive por todo o desconhecido

conjugação

pela manhã deste-me um beijo
fresco de crocante e suculento, tudo junto,
bem polpudo como sempre
— logo dou-te mais — declaraste-me
— bommm, guarda-mos — pedi-te eu
— beijos não se guardam, dão-se 
dão-se sempre frescos, acabadinhos de sentir
querem-se aromatizados — ensinaste-me
então e aqueles apressados — indaguei
— são rápidos, são pequeninos — continuaste-me 
mas para serem beijados, têm de ser frescos
se recessos não são beijos
nem ósculos serão, que nem esses são ressequidos.
isso de que falas são tiques em molde de beijo
outras vezes são desfeitas
amordaçam e despeitam os agredidos.
beijo não cabe em "tupperware"
nem se conserva em frigorífico
beijo tem, sempre, aroma do momento
— e dos beijos que te dei — balancei
— foi nos teus beijos que aprendi o que sei — sorriste-me
no teu peito nasce a poesia que escrevo — escrevi —
... ainda que me chames poeta

poeta espécime

poeta, só existe no estado independente
e nem da independência se torna refém.
é arisco, indomável e errante
transviado por natureza
solta poemas: assinala o caminho
que não o siga quem gostar do conforto

a poesia tem a beleza da aventura
vive de trepar o impossível e de pairar o infinito
e morre nos círculos das rotinas
por aí não há poetas

angústia

todos os dias sinto a infelicidade
de uma folha branca, de uma janela vazia
aguardando
que nela me verta que nela eu encontre
o sentido tresmalhado do dia

terça-feira, 3 de setembro de 2013

trajetos da tarde

i
não sou nada, por isso
quando olho pela janela
só encontro meu reflexo
todo o resto, eu invento

ii
destino de homem
que se foi fazendo bicho
é bicho-homem
corpo de homem
alma de bicho;
indistinto bicho

iii
a metafísica, a filosofia
e uma certa poesia
são modos de procurar
a felicidade
em dias de mau-humor

iv
ai,
como eu tenho algo para te dar...

v
vejo uma flor que cresce do chão
estica-se, balança-se, aproxima-se
o chão ajuda-a e eu sorrio-lhes
pateta da emoção...
não sou nada... nada...

vi
a primavera escreve-se nas árvores
e também nas flores
livros estampados de paisagens
com o mar, sempre o mar,
ao fundo
para onde todos os rios correm

vii
as folhas
amarelas-castanho de morno e de sol
libertam o outono
dançam ondulações de mar
(ainda o mar)
unem-se sem capas, algumas enrolam-se
outras rebolam, livres, porque é solta a poesia

viii
os amantes, como poetas, assinam nos troncos
querem a perenidade de um epitáfio

pé-de-orelha

puxa minha orelha
e lá encontrarás o último segredo
aquele que lá deixaste
ouço-o todos os dias

aventura

de todas as vezes que saí empenhei algo de mim
investimento na viagem iniciada para um incerto
visto como certo, de tão crentemente desejado
empenhei-me de todas as vezes que parti
levava numa mão a amargura; do errado
na outra, a convicção
trilhei em frente, fitado no horizonte
aquele mesmo que um dia libertei da linha

Só o mistério chega inteiro ao fim.*
e desvanece-se
solta o vazio


*Almada Negreiros; in Textos de Intervenção


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

poeta d'água

poeta faz-se de água
nasce em água de útero
espraia-se em água de rio
vagueia em água de nuvem
escorre em água de chuva
renasce em água de mar
brota água de lágrima

beira-mar

cada onda volta uma folha
era o mar.
o vento
a inspiração da página seguinte
gravura prateada a sol.
o poema
o voo da gaivota, sempre gandaio
desenho dos ventos de poesia.

ainda o mar
na melodia de fundo
ao grito de gaivota que declama o poema
que a areia e a rocha aplaudem
enquanto a criança pequena
planta castelos na areia
que o mar os abrace
e o sorriso lhe aparece
então o poeta tece inutilidades.

leve

aprecio o nado dos peixes
aprecio o voo das aves
aprecio a leveza de ter os pés ao nível da cabeça

domingo, 1 de setembro de 2013

manoel

com quantos pássaros se escreve teu nome
que letras se usam para pintar o céu
quantos desenhos tem um poema
com que revelas segredos a deus
desrimando
rumando à poesia que quer ser criança
fantasia
sem "quantos" nem "comos"

a praia de todos

ela, a praia
nascera dele, o mar
e dela, a areia
é amada por eles, as gentes
que nela arejam os corpos
assolham a alma
exibindo o que têm
ora exuberantemente
ora em absoluta discrição
como ela, a praia
de todos, os momentos

amores

amor é doçura do tempo que chega em alguém, com a forma de vida
amor é uma ideia amadurecida em peito sonhador
amor é aquele colorido num arco do vento
amor é o cristalino da água na concha das mãos

meu futuro foi ontem, correu no pôr-do-sol
hoje foi passado que me chegou de presente

desconcertante

o sol partiu de manhã
agora que é tarde, ainda não veio
há bocado, que era noite, fez-me tanta falta

sábado, 31 de agosto de 2013

inevitável

a paz é simples, quer-se
tem a sabedoria de criança

a guerra é complexa
tem aquela sabedoria de adulto
a da inevitabilidade

charco

há água no charco
guarda o rosto da noite
guarda o raio do sol
guarda olhares enamorados
guarda a rezinga do velho
guarda o olhar de cão
guarda o rosto de criança
enquanto aguarda traquinice de meninos
em chapinos e ondas
e mistura-se tudo em alegria

a dureza do dia-a-dia tinha muros
entre eles e entre os dias
fez-se de pedras e de espinhos
nascidos e criados entre eles
todos os dias

e como ela temia desejar-lhe a morte
e se a comiseração de deus intercedesse?
como se vive com peso na consciência?
não confiava no deus em que acreditava
podia não ser tão bom quanto ela
que disso não tinha consciência

um beija-flor
dá às flores tudo o que precisam
atenção, toque
tudo com muito carinho

a importância dos segredos

na sabedoria criança
os segredos partilham-se com amigos

na sabedoria adulta
os segredos guardam-se

livro de poemas

das folhas de um livro
dobram-se aviões de papel
voam em poemas
rumos da fantasia

a paz

tem a forma de um sonho
tem a sabedoria de uma criança
a paz
nasce nos rios e nos riachos
onde a água corre
para tocar nossos dedos

raio de felicidade

o raio de sol assomou à janela
e entrou sala dentro

os olhares iluminaram-se

meu mar

minha paixão é de maré-cheia
de mar
salgada, de abençoada
roncante, de ondas possantes
pura, de espuma de mar
espraia-se, enrolando na areia

pensamento solto

há um sítio onde se desperta do sonho
aí mora a escrita
aí o sonho começa a viver

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

um porco que gostava de letras

o porco fugiu para a horta e comeu-lhe cada uma das letras. sim, sendo os porcos omnívoros, também comem letras. porém, resultou ser impossível dizer-se para onde o porco fugira: não havia palavra. tinha sido comida.
logo surgiram tantas letras que se alinharam em filas, como se quisessem dançar. ensaiaram composições novas para dar nome àquilo cujas letras o porco comera, depois de ter fugido.
alguns dos arranjos eram impronunciáveis, uns quantos hilariantes e outros eram normais. de todas as hipóteses, acabaram por escolher HORTA, por parecer a mais bonita: — aquele H mudo dava a distinção merecida à horta — concordaram todos. até o porco.
a palavra era igual à antecessora, só que agora todos (letras e porco) sabiam porque fora escolhida.
as letras gostaram do convívio letra-a-letra e das sílabas e das palavras simples e compostas que formaram.
o porco continua na horta — agora com um novo nome — e se o deixarem comerá todas as letras, incluindo o H mudo, que confere distinção.

lucidez

já vivi dias de grande lucidez
neles senti-me pronto para morrer
neles dei o verdadeiro valor às coisas
incluindo a morte e a vida
que sendo irmãs, as vemos como inimigas
pelo estado de obnubilada consciência
em que habitualmente nos instalamos

a lucidez chega com o perigo
com a míngua, com a despedida
e com o definitivo
manifesta-se pelo óbvio
com que valorizamos um céu azul
ou um sorriso de olhar brilhante
e com que identificamos o supérfluo comezinho.
a lucidez não perdoa o arrependimento
do olhar pregado no chão
a menos que sejamos lúcidos para soprar sorrisos
e sentir-nos-emos prontos para morrer.

fratria

o sapo perguntou à rã:
somos irmãos?
podemos ser, mas sou eu quem coaxa.
respondeu a nova irmã do sapo.

da poesia ao poema

em poesia sente-se a profundidade
do humano desconhecimento
e das coisas triviais
que se descreve com palavras conhecidas
e outras inventadas

o poema é o momento
sincopado pelos arranjos de palavras
para debelar a indiferença

entre a poesia e o poema
há pontes inacabadas
os pensamentos dos poetas

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

raiz de árvore

a raiz das árvores
sei que não é quadrada
porque as árvores servem-se dos números
mas não são de números.
as raízes das árvores são profundas
entram pela terra adentro
até ao coração e libertam os vulcões
são como a paixão da terra.
às vezes atravessam o mar
e tomam a forma de algas
e acolhem os peixes
(os peixes pulam nas raízes)
e o mar agradecido
vai arrefecendo os vulcões
para que não queimem as folhas das árvores.

as árvores, o mar e a terra são amigos
por isso nos deixaram crescer
tal como às flores, aos pássaros
e aos insetos cantadores do verão quente
e nós reconhecidos fizemos barcos de árvores
para conhecer o mar
e só depois aprendemos os números
e descobrimos a raiz quadrada
que sabemos não ser de árvore
porque conhecemos a árvore.

pensamento

talvez inútil seja uma forma in de ser útil...
já uma inutilidade é acharmos a idade útil e in

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

cheguei
como a luz, sem vento
como o piscar de olhos
como o reflexo pupilar
como o ruído da noite
cheguei

sem mais nada

sussurros do acordar

o sol sussurrou-me um raio pela fresta da janela
e sussurrava aos retratos de gente antiga, imponente
que posava sussurrante aguardando o clic
que os poria na sussurrância da cómoda que outrora compraram
ou na pendurância sussurrante da parede, cuja cor escolheram.
fizeram-se sussurros em memórias
história daquele quarto cheio de histórias sussurradas
tão sussurrante e tão sem mofo

sussurros da manhã

o sussurro fumegante do café
o sussurro estaladiço do pão
a manteiga que sussurrava a torrada
o lá fora sempre sussurrante
as flores sussurravam entre si
as borboletas voavam em sussurros
o vento sussurro que sussurrantemente sussurrava
os olhares sussurraram algo
e um beijo sussurrou em mim

teus passos

fechei os olhos, precisava
sentir teus passos no pensamento
tinham um sabor a carícia
soavam como soalho de lar
iam e vinham, rondando-me
sonho
e sou o centro do universo

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sem tempo

tanta que tu és de madrugadas
de pores-de-sol, de tempos de nada
namoras-me ronceira
na orla de calmaria que tem a paz

deixámos a meio o canto dos pássaros
dissemos todas as palavras pela metade
fizemos o mesmo com as frases
as carícias e as juras

temos de nos encontrar
sem precisarmos de argumentos

aconteceres

a manhã, amanhece
a tarde, entardece
a noite, anoitece
enquanto o dia acontece
tecendo-se, também tece
a tela do dia seguinte

sábado, 24 de agosto de 2013

lá, onde a terra parece tremer
são abraços de amantes
tudo pulsa mais forte
mais quente e mais

meu amor

quando o vento me soprou a face
também me envolveu o corpo
reconheci teu afago
tuas mãos, e meus lábios
transpiraram, suave:
— meu amor

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

a sonância de um poema é das palavras, entoadas
como notas faladas por alma de criança
ária de coral, encanto da poesia
em qualquer língua
em qualquer lugar
em qualquer momento

uma corda da roupa no horizonte

o horizonte tinha uma linha
era uma espécie de corda da roupa
ao longe
onde pendurava pedaços de coisas
coloridas, drapeantes ao vento e ao tempo
era lindo.

uma vez pendurei coisas na parte de cima da linha
o que parecia impossível resultou bonito
na mesma corda havia algos que não caíam
e outros que não esvoassavam
de um lado e do outro eram coloridos
drapeantes ao vento e ao tempo
reluziam ao sol, era lindo.

tentei-me e tirei a linha do horizonte
com ela foi a corda da roupa
os pedaços de coisas caíram,
dispersaram-se, amontoaram-se
e movimentaram-se; uma dança
entre o céu e a terra, sem linha.
sem corda
drapeiam ao vento, dançando
reluzem ao sol, fantasiando cores
formas e movimentos
que só à imaginação interessam
e tornam feliz quem ali desvenda poesia.
é lindo.

divagando

na divagação, os meus pensamentos
são desejos tresmalhados e pedaços de nexos
que convivem no devaneio, aquele lugar de liberdade
regido pelo princípio do bem-estar.
na presença da escrita todos se alinham
parecendo o que nunca foram:
ordenados.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

vento

— o vento de ontem beijava, abraçava, era ousado
e o vento de hoje oscula, roça, é tímido

— na fonte dos ventos há tantos
e cada um só nos cruza uma vez
passa, é um vento...

— há a fonte dos ventos?

— é num sítio que fica entre os montes altos
está ligado ao céu
é lá que guardam todos os sopros dos santos
os de acender o lume, os de soprar as migalhas
os de soprar as sopas e o caldo quentes...
é que no céu não há ventos

— é, o vento é coisa do céu...

além

tenho o condão de olhar o silêncio
sem ficar esperando
pela leveza dum beijo te aproximaste
desvendaste-me que sou como tu
que gosto de estar comigo
tens o dom de me entender

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

o silêncio
de onde me grita a tua voz
que não me chama
que não se zanga
detém a saudade que se ouve

o dia se esvaziou ao fim de tarde
e com ela o sol se foi
a noite chegava cheia de estrelas
para a infinitude de um luar
foi lá que encontrei teus olhos

diálogo

— psiu!
— porque me mandas calar?
— porque não me deixas ouvir-te.

as meninas dos olhos

somaram gerúndios:
correndo, pulando, gritando, rodando
chamando a algazarra
um passarão grande
fazendo de conta ou faz de contando
colorido, com penas de almofada.
trazia com ele a história pulada,
a princesa apanhada,
o rato esconde-esconde,
a dona macaca sempre quadrada
que queria a patela muito bem saltada,
a serpente vidente que fazia de corda
e qua adivinhava os erros das contas
e a tabuada.
e o recreio de tão animado
estava vistoso, estava todo inchado.
e hoje eu sinto-me recreio.

quando o sol me roçou as meninas dos olhos
o recreio chegou

dia-a-dia

houve um dia que não acordei
acho eu
espreguicei-me de olhos cerrados
levantei-me aos bocados
lavei-me, saí
trabalhei: telefonei, escrevi
tomei café
pus meus olhos assoalhar
vi uma folha cair
desenhei no canto do papel
tomei notas
encerrei a reunião
regressei a casa
jantei
e à noite não adormeci

imponência

e foi um ar que nos deu
um voo rasante de gaivota
vadio, que perseguimos
elevando o nosso olhar

utopia

sonho

na margem
no bordo
na beira
no início
no cimo
no alto
no ondeante

e ao primeiro passo a vida começa
e encho meu sonho de vida

meu tino
recusa a falta de tino
que o destino tem em si

meu tino
não procura culpado
para o arrependimento
nem para este sentimento
de sentido tresmalhado

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

meu vento maroto empurrou a água do rio
fez-se onda de água rebolada, e tanto que gostou
deu uma gargalhada de água chocalhada
subiu uma pedra e numa pulada
caiu noutra água, e mais uma onda rebolada
o vento agora mais vigoroso soprou bem soproso
na rebolada onda de água que soltou um marulho
bem do fundo do peito e pôs-se a jeito
queria que o sol a fizesse espelhada
percebendo-lhe a vaidade, o vento com vivacidade
chapinou a água tão agradecida, feliz e abrilhantada

meu vento
tem um meu de amigo

não me dá posse
dá-me intimidade e bem-estar

nossas mãos se engramparam pelos dedos
o que seria verdade se fossem ferros
ou se nós fossemos ferreiros
mas nós que quisemos ser árvores,
arbustos e flores
então engavinhamo-nos de mãos
assim existimos de dedos enrolados
mais fortes que aço

domingo, 18 de agosto de 2013

quando o mar desaguou no rio
que eu vi, corrigiram-me
são os rios que desaguam no mar

quando mostrei o mar entrando rio adentro
dissertaram-me sobre as marés
e percebi que pouco sabiam de vizinhanças
de águas, de rio e de mar

quando me reduzi a um punhado de letras
nasceram-me palavras para descobrir cores
cheiros com aromas de letras
e enrolos de língua
só pronunciáveis em pensamento
e de boca fechada.
também despontaram palavras como lavândula

a linha que une
também limita

tirei a linha ao horizonte
procurava sem limites
e a linha limitava

sábado, 17 de agosto de 2013

sentidos de filho

minha mãe chamava-me filho, era aconchegante
meu pai chamava-me filho, protegia-me
minha avó chamava-me filho, era mãe duas vezes
minha vizinha chamava-me filho, estava enganada
minha catequista chamava-me filho, era língua de deus
minha mulher chamou-me filho, foi querida
um desconhecido chamou-me filho, pareceu-me que juntou mais qualquer coisa

da ponta do meu lápis sai uma linha
única, sozinha
que se enovela em voltas e se enrodilha em letras
palavras e pontos que interrogam
exclamam e terminam.
às vezes tenho um pauta musical
outras, o que me parece um poema
outras ainda, um desenho lindo de criança
a maior parte delas fico com uma garatuja de adulto
que só um adulto entende.
então, eu fico sem sentido.

o que sei, sonhei-o no fundo de um céu bem azul
onde mergulhei bem além das nuvens, do sol e dos outros astros
lá, perdi a linha onde meu olhar sempre se agarrava, no horizonte
agora meus olhos pousavam em pontos, pontos bem soltos e a linha
seria a que eu ousasse e a minha fantasia sonhasse

o passado guarda-se nas recordações
o futuro guarda-se no olhar
o presente é, não se guarda

as memórias são presentes
de recordações olhadas pelos olhares
aqueles onde se guarda o futuro
costurados com a linha do horizonte

minha casa vive rodeada do verde que as árvores pintaram
e as relvas espraiaram-se só para que os pássaros as passarinhem
e assim vai sendo entre o passado e o futuro: o vento chega
puxa as folhas às árvores, passa a mão nas cabeças das flores
e roja-se na relva: quer sentir o verde 
enquanto as aves bicam no chão, que é a sua forma de passear
e deixam-me apreciar, porque também me vêem de verde.
há um sino na torre da igreja que canta de meia em meia hora
é um tempo religioso, da criação, para poetizar o tempo real
que construímos árido e contundente como o cimento que modelamos
do qual às vezes não gostamos.
no tempo real, minha casa está cercada de um jardim
é feita de pedra e cimento por homens de máquinas medonhas
com que rasgaram a terra e o céu por ela.
no tempo poético, a natureza deu-me o direito a fazer meu ninho
e eu sou um pontinho negro, pairando entre o verde e o azul do vento.
o tempo poético é daquela meninice que há em nós
que fantasia, pula e sorri com o futuro nos olhos
que bom que é ser feliz.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

pensamento

existe sempre uma dificuldade em nos mantermos vivos
a vida vivida nunca será fácil de viver, para ser gostosa
a vida fácil, muito fácil, tem tédio e (geralmente) é fastidiosa.

incrédulo

por ti tudo será possível
até o céu encostar-se à terra à procura de aconchego
e os anjos, que sempre vimos como estrelas
entrarem no paraíso, que afinal
sempre esteve aqui, contigo, onde o semeias

por ti tudo será possível
até as rochas entoarão hosanas lá das suas alturas
e os anjos que pensávamos estrelas do céu
que afinal sempre esteve em ti, rodar-te-ão
serão putos de um recreio, felizes por ali estares
 
por ti tudo será possível
eu sei, só não sei dizer, nem escrever
também não sei desenhar, como te sinto
e não me parece que caiba nas 4 letras de amar
embora eu saiba que por ti tudo será possível

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

confissão

escrevo-te em confissão
o que guardo para mim
escrevo-te segredos
que sopro no ar
liberto os pecados
que escondo na aragem
pela escrita
que me confessa
sem penitência
rezo o poema

desvendamento

escrevo de ti
a cumplicidade dos segredos
a cada revelação
algo desvendo de mim

o que escrevo de ti
algo que desvendo de mim

terça-feira, 13 de agosto de 2013

infância

era criança o suficiente
para desenhar tudo o que via
criava histórias com cenários
ilustrando pensamentos
sem balões. sem diálogos
os desenhos se declamavam
e alimentavam-lhe o sorriso
tão bem que o fazia
com a mão abraçou meu dedo
para que eu o entendesse
e com ele sentisse em poesia
que sabia ter-lhe nascido

talvez quisesse que o lembrasse
se algum dia se esquecesse

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

a propósito de Ennio Morricone, II

descobri!
agora sei porque nasci
para te seguir, de ouvido
correr e andar
por onde a imaginação me quiser
e tudo mais que de mim vier
será a tua música a latejar

dignidade

serve-me a morte, fria
em porcelana dura
finamente decorada
nada esbotenada, não a quero cortante.
servir-me-ei da morte fria com talher prateado
servir-me-ei com honras de convidado
a talharei e comerei bem mastigada
de boca sempre fechada, engolirei silencioso
sorrindo e apreciando, ainda
que me saiba asqueroso, a comerei até ao fim
agradecendo ao cozinheiro
seu empenho em meu repasto
sua atenção em mim.

ociesia

há uma certa poesia
que vive nos jardins
soa a cigarra
e alimenta-se de ócios
e
delicia-se num dolce farniente
no cheiro de um livro de poemas
nas viagens dos pensamentos vagos
no belo, sempre belo sorriso da amada
e no desejo preguiçoso
de escrever banalidades em forma de verso

domingo, 11 de agosto de 2013

estrofe

pois
quando as árvores respiram
inspiram poetas
expiram magia
e sopram do bosque
ares de poesia 

melodia

toco-te
como as cordas da minha guitarra
soltas um acorde
encanto-me

sopro-te
como o bocal da minha harmónica
soas uma melodia
encanto-me

acaricio-te
como às teclas do meu piano
desenrola-se a magia
encanto-me

dançamos
a leveza de uma valsa
a paixão de um tango
exorcizamos

desatamos
aquele mesmo sorriso
de adão e eva
quando descobriram a nudez

sábado, 10 de agosto de 2013

a propósito de Ennio Morricone

há músicas que têm o dom de nos completar
depois de as ouvir
torna-se difícil resistir a escrever um poema
que sempre se sentirá de um belo
até à lágrimas

amigo imaginário

escrevo-te da imaginação
aquele lugar
onde tudo é imaginário
como tu meu amigo

escrevo as histórias
imaginárias
que ambos vivemos
de uma verdade imaginária
tão real
é que a realidade se imagina
e a imaginação se realiza
o segredo da nossa amizade
que tecemos nos silêncios

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

a viúva

existia debaixo de um negro de lenço
o corpo despontava das vestes negras
num branco seráfico de pele
a que luz das velas amarelecia
de amarelecido de cera ardente
os olhos tomaram-se do luto
num corpo, como as velas, encurvado e gotejante.
havia ainda algo seu, pouco estimado
podia ser alma ou simplesmente algo
perdido, abnegado, esperando o momento
além daquela luz de vela e do luto de viúva
que a afastava dali.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

pura poesia

a poesia sem palavras
chega no vento
soa das árvores
declamam-na as folhas
dançam-na as borboletas
também as abelhas e as aves
desenham-na as crianças
em linhas simples
em formas planas, transparentes
infância dos olhares sorridentes

de passagem

cruzei com um olhar de gaivota

era a serenidade determinada
a beleza de um voo livre e certeiro

esclareceu-me que lhe valia
a sua independência vadia

íntimo

seja quando for
o mar entrar-nos-á pela porta dentro
quererá visitar-nos
estender-se-á a nossos pés
mergulha-nos-á os tornozelos
molhar-nos-á os joelhos
e nele banharemos as mãos
seduzir-nos-á para nos tomar o corpo
nas ondas que nos fez, à medida
intimamente, acreditamos
algures, nós e o mar
entrevimo-nos gémeos
quando nos sentimos irmãos

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

poliversos de amante

o estado de amante sente-se como as estrelas: pontos, reminiscências
que encantam um belo de um céu estrelado.
partículas luminosas, aparentemente insignificantes
que são tudo: são a força do universo, talvez o prenúncio de poliversos.
tal como o amor: é a anunciação de tantos todos, feitos de pequenos nadas.
a mais poliversa das existências.

o estado de amante sente-se como os sorrisos; encantam, encantadores
geram encantamentos que se perpetuam entre a saudade e o prazer.
o olhar corre atrás deles, perde-se e encontra-se com as memórias
também elas repletas de sorrisos.
quando regressa, o olhar trás um sorriso,
que capturou nesses poliversos extraordinários de recordações,
que planta na alma, aflora no rosto e resplandece no olhar:
naquele mesmo que trouxe o sorriso.

pequenos universos que moldam a natureza poliversa do amor
que só o estado ébrio e alerta de amante entende;
o estado próprio dos amantes.

perfume de mulher

meu estado de amante teu, sente-se como os aromas: instala-se. nada de narinas.
fecho os olhos e toco-te o odor do teu pescoço, naquele exato ponto
em que se cruza com o da tua orelha e com o perfume da raiz dos teus cabelos.
irresistível;
escapa-se um beijo que te pouso demoradamente no rosto, segredo ao ouvido,
porque meu rosto quer colher o morno aveludado do teu.
tão perfumado.
a fragrância do teu ombro encaminha-me até ao teu peito,
como sempre
repleto de aroma a conforto morno, leve olência:
o equilíbrio perfeito de maternidade e de amante.
ah! e o cheiro terno dos teus braços. como é doce o universo de sensações
quando neles aconchegas minha cabeça no encontro com teus seios
perfumados de mulher.
o aroma do teu ventre chega-me quase impercetível; vem na aragem
e traz um doce florido,
aromatizado de quente de carinho e de intimidade de virilha
odor gáudio de especiarias,
nascido no vaso que te fez mulher: mãe e amante
e nos afeiçoamos
enleiam-se estes aromas em bálsamo e nele me perfumo de ti.

criação

deus criou os poetas
que escreveram as orações
e que ensinaram a rezar
os poemas
que eram orações declamadas.

ora, sabe-se que os poetas
gerados da criação
foram além das profecias
então deus fez os profetas
e para os poetas, criou a poesia.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

aqui

estou aqui
tens-me se me quiseres
e se puderes ter-me
que não seja porque te pedi
mas porque me queres
mais, me desejas
e sem que me supliques
sente-me onde estou
aqui

lágrima de vida

ardem-me os olhos das memórias que se esfumam
ardem-me os olhos do farrusco frio das cinzas
ardem-me os olhos do pó da terra
a sequidão procura em mim a lágrima
para romper a esterilidade

se fosse possível à terra chorar
jamais sentiria a aridez
e o vento seco seria bem-vindo
pois enxugaria em vez de ressequir

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

anseio

quero ser um rio de corrente calma
buliçoso nas rochas
navegável por barcos a remos
onde as árvores bebem e tocam o céu
o leito onde flores flutuam
e espraio-me ao desaguar

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

silêncio

não digas nada
deixemos o tempo passar
sem nada dizer. e tu
sem nada me contares
não digas sequer que o tempo está bom
ou que vai chover
não gastes as palavras
é que os silêncios não se preenchem
e muito menos com palavras
as palavras só os encobrem
aparências
não digas nada

um dia ouvi
(se calhar inventei)
que os silêncios se quebram.
era criança e imaginava-os cristais
teriam mil cores,  ou mais
nunca as contei.
todas lindas para me encantar
na minha certeza
que o silêncio nunca fora de ouro
era o meu saber, a minha riqueza
a minha maior idade.
por isso prezo o silêncio, preciosidade
que não quero ver quebrada
mesmo se pesado, denso e acre
como agora
não digas nada.

não digas que o tempo acabou
porque o tempo nunca acaba
o silêncio distende-o
até que seja amplo e moldável
eterno.
consta que a eternidade nasceu em silêncio
que sempre foi silenciosa
como os desertos tão silenciosos e eternos
e como as almas
sempre eternas
sempre silenciosas
não digas nada.

não digas nada
nem à partida nem à chegada
o silêncio não é ausência
e nunca será nada
o silêncio é uma melodia
que podes fazer tua
é no silêncio que falas à lua
é no silêncio que tocas o sol
é no silêncio que te ouves a ti
e pares um poema
bem lá do fundo da imaginação.
e soltas teu simples desejo
"não digas nada".

segunda-feira, 29 de julho de 2013

eterno rio

há um rio que corre em mim
nele refresco a alma
e solto os olhos
nele corro para o mar
e marulho a saudade
nele abracei um peito
que sempre bateu por mim

na alma

na alma
onde a saudade espreita
onde a saudade cresce
onde a saudade dói
mansinha
de mansinho
onde a saudade mora
emudecida
a saudade murmura
na alma

revelação

abeirou-se teu beijo
sem ondas nem brisas
sem raio de sol nem saudade
aflorou
chegou como queria
e eu pedi-lhe que morasse em mim

sábado, 27 de julho de 2013

navegar

por vezes
para sonhar
precisamos de alguém
que sonhe connosco 
e tenha um olhar de caravela 
enfunado ao vento
rumo ao desconhecido
navegando 

latino

por vezes precisamos de sangue
para estarmos vivos
para sentirmos, vermos
odiarmos e amarmos

por vezes precisamos da dor
para nos engrandecer
para curtirmos, amadurecermos
talvez sem envelhecermos

por vezes precisamos gargalhar
para espantarmos os corvos
para declararmos paixão à vida
e à companhia dos amigos

quanto aos amigos...
nada se escreve sem eles
nem um sentido "bom dia"

sexta-feira, 26 de julho de 2013

o pedido

tropeçaram-lhes os olhares
e neles trocaram algo seu.
pouco depois trocavam beijos:
uns dados, outros roubados.
os braços em abraços
outros olhares e as promessas,
eram ofertas e entregas
sempre aceites
sempre retribuídas.
quando ele lhe pediu a mão
ela sorriu comovida como nunca
entrelaçaram os dedos
e saíram mundo fora de mão-dada
fundidos numa só vida.

entre os lábios

entre os lábios
solta-se a loucura
a mesma que se esconde no peito

fogem palavras
impropérios
sejam de raiva ou de paixão
liberta-se o desejo
no musculado trejeito
de um lábio mordido

depois há os beijos
eles mesmos arautos da loucura
e exercício de musculação

morto-vivo

tudo o que tinha trajava-se de morte
desde o lado mortiço do olhar
que só ele via
ao tom esverdeado da tez 
ao modo zombie do andar
à negra alma que encobria de poesia.
o que parecia alvo e colorido
era uma rasa campa de mármore branco
com uma jarra de flores.
havia nela um sereno epitáfio
"aqui jaze quem morreu lento"

apelo

mergulha as tuas mãos em mim
deixa que o meu corpo lhes toque
nada decifres
sente tudo o que encontrares

o prazer das mãos na água
chega quando as sentimos mergulhadas

solto ao vento

apaixonei-me pelo vento
abraça-me o corpo
abro os braços e envolve-me até à alma
íntimos, confessamo-nos
o prazer enigmático do calafrio

a liberdade
o sorriso
e o desejo de um voo de gaivota
vêm depois
porque nos soltamos ao vento

leves
como um pensamento livre

quinta-feira, 25 de julho de 2013

diálogo com a morte

escrevo de coração golpeado a x-acto
uma dor fina, inesperada
de um golpe que ainda não se vê
mas sabemos que será profundamente grande
e doerá em toda a plenitude da ferida
mais o terror que lhe antecipamos

onde a dor ainda é fina
e também ainda sem dorido
escrevo aterrorizado pela morte que passou ao lado
de perto, de soslaio
os olhares que cruzamos não se tocaram
parecendo que não nos vimos

surpreende-me quando chegares
adoro surpresas
até lá, deixa os meus em paz

epitáfio

quero morrer incógnito
que a partida tenha acabado
quando os meus amigos souberem.
falta-nos a todos o jeito para despedidas.
que a mais ínfima partícula de mim
minúscula
os reúna felizes, convivendo
e saberei que valeu a pena ter vivido.

adeus

na despedida gritou a saudade
e a lágrima derramou-se
parecia assinalar o desperdício de uma vida por viver
as vozes comovidas afinaram-se
e em coro libertaram os anjos que viviam na gente
o que era despedida foi encontro
a saudade será para sempre
quanto à morte, se negra, dura e ressequida, foi vencida

quarta-feira, 24 de julho de 2013

enredamento

era o teu amor
que trazias nas mãos
fora meu e agora teu
e que eu que julgara meu
por ter nascido em mim
o que de facto aconteceu
de mim nasceu
mas nasceu por ti
nasceu para ti
por isso era teu
por isso o acarinhavas
tantas carícias lhe davas
convencida que era meu

terça-feira, 23 de julho de 2013

piano

o piano parecia dançar
na melodia que ele próprio pintava
linda, cada vez mais, bela
nota a nota, a cada pincelada
a dança que o piano tocava

o olhar perdido, da gente
que se desatava na melodia
partilhava-se pelo piano, pintor
amante dos olhos esquecidos
com eles baila, dia após dia

sexta-feira, 19 de julho de 2013

contou-me um fada
que os rios nascem no peito
onde pulsa a vida
correm nas veias
e desaguam no sorriso.
os teus olhos
são os peixinhos do rio

corpo da lua

as formas da lua
são insinuações de corpo
mulher frente ao espelho
alisando o cair do vestido
marcando à mão a curva do ventre
a linha da anca, o volume do peito
rodando de flanco em flanco
sempre rodando, num pé e no outro
como uma dança
não podem ser fases.

teu peito

abraçou-me o teu peito
e recosto a cabeça no mimo dos teus seios
que tu e o tempo moldaram ao meu rosto
aos meus lábios, ao nosso respirar

abraçou-me teu peito
de batida em batida repousou-me
até ao limbo onde sonho e realidade
se tocam, se enlaçam e repousam um no outro

abraçou-me teu peito
e fui teu amante e fui criança
pulei nestas linhas da mesma história
encarnei dois personagens do mesmo amor

quinta-feira, 18 de julho de 2013

espuma de mar

e como sempre
havia aquele mar
de tão imenso que era
o sentido e o sentimento
que marulhava em nós
que ora se nos enrolava nos pés
ora nos salpicava a face
quem diria
que é o mesmo mar alto
dos vagalhões...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

em paz

quando meu dia for santo
vestir-me-ei demónio
e infernizarei os anjos
tão gorduchos de paciência
até que corram atrás de mim
esconder-lhes-ei as vestes
zombarei com a pequenez dos seus sexos
e jogarei o arco
com as suas auras de anjo
até que digam palavrões
sei que no final do dia
se eu me deixar apanhar
riremos todos de cansaço
e quando o deus-pai vier apagar a luz
sorriremos cúmplices de felicidade
e deus-pai orgulhar-se-á de nós
sem que o saibamos

terça-feira, 16 de julho de 2013

amanhacer

escrevi a frescura da manhã
para que o teu acordar
fosse primaveril
teus olhos, felizes, chilrearam
encantadoramente preguiçosos
à luz que chegava contigo
trazias o sol no peito

li-te uma passagem daquele amanhecer
a primavera fresca reluzente
e lá estávamos nós
um e outro para sempre

...

hoje pensei pedir-te que me contasses a história
daquela princesa que sorria porque era feliz
explicarias como a felicidade lhe nascia no peito e lhe brotava pela vida
eu acho que a felicidade lhe chegava na sonância da tua história contada
porque a vejo ouvi-la tão quieta e entusiasmada
que não admite ser interrompida
nem pelo beijo do príncipe que sempre a julga adormecida
e eu aguardo pela minha entrada de príncipe

segunda-feira, 15 de julho de 2013

beijos

conheço cada um dos beijos que me deste
fecho os olhos e chegam-me
um após outro, por vezes em grupo
visitam-me, repousam em mim
e partem, ternurentos, como chegaram
acenando um sentido "até breve"

domingo, 14 de julho de 2013

compulsão

era dia da escrita se impor
o que fez com a mestria que lhe é conhecida
com a persistência a que se habituou em mim
pois nada mais acontecia
e eu escrevi, por fim

entre o sono e o acordar

despertei da madrugada
feliz por acordar
o tempo era uma muralha escura
pesadamente irrespirável
intransponível
as memórias eram balas de canhão
caíam em parábolas imperfeitas
despedaçando a serenidade
o ar era pesado de mosto
fedores vários de angústia
o suor tinha o gelo do desconforto
e era o mesmo no sono e no acordar
como todo o resto
só fiquei feliz por despertar
sonhando que poderia mudar o pesadelo

sábado, 13 de julho de 2013

ar de vento

e foi um vento que entrou em casa
arejando os cantos, depois os recantos
onde os cantos se dobram
onde as recordações se resguardam
se aprisionam pela inércia do nada

rodou, o vento, dançou
de canto em recanto, escapuliu-se
com o ar das memórias
agora mais frescas, refrescas
como os recantos dos cantos

a sala era antiga e a dona envelhecida
sentada à janela muito bem lacrada
bem protegida do vento lá fora
tanto o pavor de se ver constipada
mas apreciava uma sala arejada

economia

serei feliz
seremos mais felizes
quando formos mais humanos
quando percebermos a economia
uma só dimensão da humanidade
que nem será a mais importante
mas de um enorme poder
destruidor do humano que há em nós
adoramos aquele bezerro de ouro
quando deus é a própria humanidade

24 teres de amor

o que é que o amor tem?
tem a textura vermelha de rosa
tem o toque de lábio carnudo
tem a humidade de um beijo
tem o conforto de um colo
tem o aroma de seio
tem a perdição de um sorriso
tem a doçura de um olhar
tem o sabor de uma lágrima beijada
tem a candura de um desejo sonhado
tem a persistência do pecado
tem a leveza do toque
tem um calor de corpo
tem um fresco de arrepio
tem a liberdade do rebolar num relvado
tem a imensidão de um areal
tem o ócio de um deserto
tem a quietude do fim de tarde
tem a explosão de foguete
tem uma batida de peito
tem um ritmo de tango
tem o aconchego de balada
tem o cintilante da luz
tem o dom da tentação
e é tentadoramente bom.

alma

guardo uma árvore
um segredo de poesia
que ela mesma me ensinou
tomando-me
elevou-me nos braços
neles me embalou, amplo
como o horizonte.

aconchegou-me no regaço
bem no centro
algures entre o céu e a terra
(que as árvores unem
pela vocação do nascimento)
aceitou os meus ditos
todos os meus pensamentos
sonhei tudo
sonhou comigo
tudo o que poderia ser sonhado.
tudo num silêncio eloquente.

deixou que o vento falasse por ela
falou-me ela pelo vento
desvendou-me o voo das folhas
mostrou-me a dança dos ramos
ilustrou-me o pulsar das sílabas
semeou-me a poesia
onde nasceu esta árvore
que vive em mim
plantada
bem no centro.

poema de pedra

pedras, eram pedras
fragmentos de pedregulhos
que namorou uma a uma
que intimidade
naquele toque forte com que lhes pegava
voltava, mirava e revirava
desvendando-lhes a alma
(caso as pedras a tivessem)
então, aconchegava-as no muro
num alinhamento terreno, de si e de pedras
e que orgulho
e que poema
um muro almado de pedras
do pedreiro poeta
construtor em poesia.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

nas pálpebras

trago nas pálpebras a preguiça
trago nas pálpebras a vergonha
trago nas pálpebras o cansaço
com que encubro meus olhos

trago nas pálpebras as pestanas
trago nas pálpebras o pestanejar
trago nas pálpebras meus olhos
com que te roubo o olhar

quarta-feira, 10 de julho de 2013

amor de infância

era um bilhete rabiscado
amarfanhado, nada mais
era tudo o que querias
era a tua confissão
amor escrito à socapa
atabalhoadamente
entregue de empurrão

surpresa, foi tão bom
mereci a tua atenção
num bilhete perfumado
a tua letra de flor
e desenhaste um coração
que bem que escreves
é todo teu o meu amor

pensamento

nos encontros mais importantes metamorfoseia-se a alma, ainda que os corpos pareçam inalterados...

fases

sempre que partia estava de chegada
em cada saída havia uma entrada
a vida continuava, como sempre, continuada
quando só entendia a forma faseada
todas as fases via, outras tantas procurava
faseava o tudo e faseava o nada

terça-feira, 9 de julho de 2013

fantasia ao vento

confessou-me, o vento
já não suportava soprar
e não o deixavam parar...
perguntavam-lhe...
a nuvem, como voaria?
e quem levaria o sol?
e a lua, quem a traria?
e como sucederia a noite ao dia?
e quanto à fantasia
em que ventos se semearia?

decidiu-se o vento
fosse brisa ou ventania
ventaria, ventando
soprando no tom da poesia

beijo de lágrima

beijei-te uma lágrima
recordo-lhe o sabor
a textura de sal no teu rosto
lembro-me como se espalhou nos meus lábios
como se ancorou nos cantos
e como te abracei
longamente
era o que mais queríamos
beijou-me a lágrima

dedos

íntimos como dedos
entrelaçados num aperto dorido de bom
distanciados num aceno longínquo
encorpam contemplares
com que nos adoçamos

sábado, 6 de julho de 2013

revelação

há dias que desejo tanto não sentir poeta
não me apaixonar
por ninguém, por nada 
além de ti e além do que é teu
e não consigo...
é como uma infidelidade que não compreendo
amar além de ti
retirar-te do centro...
porque não há centros no amor
neste amor há paixões
e todas me queimam o peito
ardente
a tua ilumina-me
uma chama em mim
recortando a escuridão

flor

os meus mimos florescem
em ti
florescem no teu corpo
que se move atrás deles
florescem nos teus olhos
que brilham por si
florescem no teu sorriso
que parecendo-me para mim
se mistura com tudo o que é teu
e me diz o que mais gosto de ouvir
como os meus mimos te florescem...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

saudade

onde os peixes nadam
fazem-se as ondas que nomeiam o mar

onde a aragem se espreguiça
enlaçam-se as brisas em rodas de vento

onde o rio desperta
o leito faz-se manto de neblina beijada pelo sol

onde as pálpebras se abrem
foge uma memória e pinta um pensamento
que só a saudade entende

mal-estar

tenho tudo
incluindo aquela dor indecifrável
que me corrói
quase me corrompe
pouco a pouco
eternamente
como se fôssemos um do outro

domingo, 30 de junho de 2013

partida

partida
é um bom estado
aberto para sair
disponível para mudar
pronto para entrar
saber o indispensável
bagagem pequena
amizades em dia
aquela certeza amena
encontrar-nos-emos
entre uma volta e uma ida.

confissão


confessou-me, o vento
já não suportava mais soprar

busca

o que procuramos
pode estar mesmo diante dos olhos
pode estar no desconhecido
pode nunca ser encontrado
pode nunca se ter perdido
pode estar tão bem guardado
que nunca será reconhecido
é impossível encontrar
o que nunca foi definido

nesga

era uma nesga
por onde se via o dia
e o dia
que se via por uma nesga
passava rápido
entre as duas faixas escuras laterais
tudo era tão rápido e efémero
parecia colorido
mais colorido
e rápido
e efémero
o que faz uma perspetiva cerrada

ânsia

meu dia foi longo
interminável
interminavelmente longo
e vazio
faltavas, não estavas
não te via
nem chegava o final do dia.

nostalgia

tocava a nostalgia
numa melodia
chegava a nostalgia
no vento fresco da manhã
aparecia a nostalgia
estampada numa fotografia
mergulhavam na nostalgia
as linhas do meu pensamento
instalou-se a nostalgia
queria, precisava ser acarinhada
e recostados convivemos
verso a verso neste poema

sexta-feira, 28 de junho de 2013

pequenos nadas

e se as ondas do mar
se fizessem do nadar dos peixes
e se as tempestades
se iniciassem nas brisas
e a chuva
no rio corrente
...
talvez a minha paixão
tenha despontado
da distração do teu olhar

desaguar

quando éramos rio
viamo-nos nos reflexos
cintilantes como olhos
que nos espelhavam
saltávamos nas pedras
pulávamos das quedas
gargalhávamos de rio
era o som jorrante da corrente

quando éramos mar
rebolávamos
de onda em onda
e ora nos projetávamos
no abismo vociferante
ora namoradamente
marulhávamos
ao som das gaivotas

hoje desaguamos
só porque somos água

ao acordar

esta manhã
pedi aos pássaros
que escrevessem por mim
entusiástico
galhofando ao sol
do alto de um voo
semeando alegria

quinta-feira, 27 de junho de 2013

a-balada

meu olhar de hoje
encontrou-se com o de ontem
desconheciam-se
ou não se reconheceram
chegaste e apresentaste-os
convivemos
conheceram-se e partiram
foram na mesma direção
primeiro um
depois o outro

nascimento

as palavras sairam-lhe
se fossem água, brotariam cristalinas
ou desabrochariam, se nascidas num jardim
soprava-as a leveza da brisa
nela borboleteavam quase infinitas
para pousarem em peitos abertos
e perfumaram-se
combinaram aromas
que estremeciam de tão humanos
quando o poeta sorriu
os pássaros chilrearam
em poesia

quarta-feira, 26 de junho de 2013

pensamento

a infelicidade aprende-se a curtir com a idade.
a felicidade é aquela parte que desaprendemos com a idade.

depois há a morte, cuja eminente proximidade, nos impele a redescobrir a simplicidade da felicidade.

olhar feliz

i
tão feliz, teu olhar
tuas meninas dos olhos
rodam sem parar
crianças num recreio

ii
tão feliz
tuas meninas dos olhos
crianças num recreio
teu olhar
rodam sem parar

iii
tão feliz
crianças num recreio
rodam sem parar
teu olhar
tuas meninas dos olhos

iv
tão feliz
rodam sem parar
crianças num recreio
tuas meninas dos olhos
teu olhar

v
tão feliz
teu olhar

3 formas

i
a gota de água
escorria em teu corpo
gerou um amor perfeito

ii
gota de água
escorria
teu corpo
gerou
amor perfeito

iii
gota
água
escorrida
teu corpo
gerou
amor
perfeito

aroma

beijei
teu ventre
perfumei-me
repousei a cabeça
adormeci
sonhei
acordei num sorriso
sonho perfumado

orvalho

tu
gotícula
água
cristalina
refrescas
purificas
reluzes
ao sol

erva do caminho

uma erva do caminho
pisada, importunada
tratada como daninha
dela nasceu uma florzinha
tantas vezes ignorada
que teimou e fez-se linda
desejada
pois sentia seu destino
gerar a sementinha
ou ser colhida
num ímpeto apaixonado

terça-feira, 25 de junho de 2013

vincos do destino

nas linhas das mãos
nos vincos do vestido
decifrava-se o destino
ora amarrotado
ora alisado
por mãos amarguradas
que queriam do vestido
o colorido que vestiam
e encobriam 
seu tom atormentado 

transcendência

encontramo-nos
no teu dentro, no cerne
do nosso encontro
envolvemo-nos
peito a peito de um abraço
segredado em confissões
sussurradas ao ouvido
e o que dissemos
falava-se pelos olhos
e o que sentimos
ia bem mais além
do próprio corpo

segunda-feira, 24 de junho de 2013

teu beijo

teu beijo chegou-me
tocou-me à fronte 
queria entrar
apanhei-o na mão
pousei-o no corpo
para o tentar.

teu beijo desdobrou-se
aqueceu, alongou-se
abraçou-me por inteiro
tão forte e intenso
hoje e sempre penso
no teu beijar.

musa

andas sempre comigo
nos meus sonhos
nos meus desejos
nos meus pedidos
escritos em poemas
que oro
e que não sei declamar
rezo-os
com a entoação
que aprendi no rezar
com a convicção
que te manterás em mim
mais um pouco
uma sílaba que seja
e se puder ser, um verso
ou uma estrofe
e porque não um poema
um livro, uma obra...
assim me tento poeta
para continuar sonhando, contigo.

pensamento

nunca esquecem os aniversários de quem nos tocou no coração
ainda que omitamos a ação, manifestam-se as memórias

sábado, 22 de junho de 2013

vezes sem conta

de todas as vezes
eram vezes que nunca contei
e que quis minhas
sempre quis
sem que soubesse
se merecia
ou porque queria
uma só vez que fosse.

como se escolhe uma das vezes
quando não se sabe
aquela que se quer?

de todas as vezes
é-se tão pobre
como de vez nenhuma

gosto

gosto da raridade
do sol da meia noite
da estrela da manhã
da trovoada de verão
da claridade do luar
dos teus olhos
quando os fazes pequeninos
iluminados de um sorriso
denunciando tua paixão

poetizando

tomei-me de mim
tornei meu sonho
a realidade de um poema
onde me verti 
dia a dia
desde que nasci

criação

todos os poemas são verdades, cristalinas
como é imaculada, a natureza da poesia
tocam fundo: serenam e inquietam
do sentimento à razão, a beleza da criação
os ideais e as ideias mais peregrinas

sexta-feira, 21 de junho de 2013

cuidado

i
miras meu peito
podes tocar-lhe
tem cuidado
para que não te magoes
no quente ardente
inflamado
ou nesse pedaço ressequido
mais empedernido
que um empedrado
tem cuidado

ii
gosto que me olhes
sentir a tua atenção
a telepatia de um beijo
que me entra pela janela
toma meus dedos como seus
e me despeja, letra a letra
verso a verso, num poema
de mim desconhecido
que me faz ser ungido
em vez de derramado.

iii
como gosto
do teu cuidado.

pensamento

deus fez o homem
deus fez a mulher
e nós fizemos amor
um hino a deus
hossana lá nas alturas!

carta

meu amor,
escrevo-te o que não sei
nem entendo. o facto
é que moras em mim
e sem que eu saiba porquê é belo
tão belo que me desponta uma lágrima sem tristeza
comoção? talvez
agradecimento? seguramente.

e escrevo-te outra vez
sem saber porquê
como quem passeia sem destino
caminhando; um pé à frente do outro
de olhos no infinito
onde tu, sempre tu, te insinuas bela
mais uma vez belo, vês?
como tu e o infinito casam tão bem.

volto a escrever-te
impulsionado pelo desejo
de dobrar o infinito
e tocar-te como se tocam os humanos
ardentemente, calafriamente
e se conseguisse escrever esse toque
tornaria este papel sagrado
seria a inspiração de deus.

e escrevo-te, agora sem vez
preciso abrandar minha alma
agigantada por ti, ousada para ti
só para poder evolver-te
como um perfume, agradecida
pelo teu olhar, meu amor
poesia doce do dia.
do teu amador poeta muito amado.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

.

até as pedras do caminho
alinhadas no empedrado
se emalham para que saibas
a linha do teu destino
os passos do teu passado

tentação

seduziu-me
a lonjura da minha janela
arrancou-me com ela
tentou-me, para a desvendar
pairando na dimensão dela
fecho os olhos
deliciado à minha janela

alúvio

tua natureza de rio
encontrou-me e viu-me mar
sobre mim jorrou
desaguantemente

inundaste-me
tomaste-me em tuas águas
possantes e irrequietas

e não sendo eu mar
e tu não sendo rio
sabemos
nestas águas não se nada
flutuamos
o que nestas águas afunda
é coisa imunda

nobreza

- porque me proteges?- indagou o lobo.
- és uma criatura do meu reino. - serenou-lhe a princesa, afagando-lhe o pêlo.
o lobo entendeu, reconhecia-se no olhar, e partiu com a alcateia.
a princesa despediu-se com um adeus, até os perder de vista.

felicidade

anda, fura-me a janela
invade-me
leva-me, sem partidas
quero-te
quero-me teu
abraçado, arejado
sem convicções nem certezas
leve como a felicidade
um olhar descontraído
em fim de tarde
morno de poente que serenamente 
entrega à noite o que foi dia

e a ternura da noite, quente
encobre a noite fria

bola de sabão

sem sonhos nem madrugada
deitaste-te em meu peito
porque era o teu lugar
cobriste-te com minha pele
baloiçando ao ritmo do meu pulsar
e sopraste minha alma

levitei, nem sei
agarrei-te a mão
saímos voando
como bola de sabão
coisa mais bela de fazer
como a felicidade plena
surge de coisa tão pequena

descansa em meu peito
onde é o teu lugar

quarta-feira, 19 de junho de 2013

exibição

meu pensamento
coloquei no vento
ficou logo pronto
saiu e foi voar

letras arejadas
palavras enfunadas
velas de caravela
montadas em poema

galgando a onda
liberta-se do tema
exibicionista
só para te agradar

segunda-feira, 17 de junho de 2013

tristeza

a tua tristeza entristeceu em mim
e o mar já não marulha
e as gaivotas são pássaros
e o luar fez-se frio
e sem graça
e as borboletas
tal como as abelhas, são insetos
e as flores são plantas
e o jardim, um mero jardim
e sinto tua tristeza
entristecendo
em mim

luar

haverá luar
quando olhar o céu
e encontrar a lua
tentadora, insinuante
olhando do alto
e sendo amante
far-se-á luar

domingo, 16 de junho de 2013

senhores

tirai da cabeça
aquela parte do intestino
que para lá migrou
por melhor que se tenha instalado
tão bem que fez migrado, o cérebro
que se escapuliu
pelo sítio do evacuado
uma vez incompatível
o maciço cinzento
com o gaseificado destino
de mais abaixo nível

eis a razão
porque vos flatua a voz
e quanto à ideias
as perdeis no saneamento

poeta

mineira, mulher
vive na a força do vento
fantasia de vulcão
peito quente e reluzente
estourando de paixão
doçura em pensamento
tão delicada a flor
no toque
cada uma das pétalas
conta uma história de amor.

jardinamento

eu tinha
sem saber
era minha
a atenção de uma flor
aquele amor de borboleta
uma chegada de andorinha
que por mim se coloriu
de primavera se floriu
talvez...
talvez tivesse

é que eu tenho uma rainha
sendo eu dela, fez-se minha
no reinado de um jardim
somos um feito de dois
namoramos, fazendo pós
semeamos perlim-pim-pim

apelo

solta teu cheiro de poeta
quero inalar teus perfumes
que desenhaste, escrevendo
um a um
de um só repelão
ventania escrita à mão
calmaria com paixão
alma quente
poesia por inteiro

sábado, 15 de junho de 2013

borboleteado

era um voo de borboleta
ondulante
movimento de bailado
diria mesmo
borboleteado
tal era a sua natureza
única
como o poesia
esse voo de borboleta

pensamento

usei metade da minha vida para me afirmar
uso a outra metade para me construir
sabendo que não me faço pelas minhas mãos
ciente que me faço pelas mãos dos meus amigos

sexta-feira, 14 de junho de 2013

ato de contrição

bateste à minha porta, maria
querias a minha mão para levar
sentias a solidão
de nada ter para agarrar
confessaste... rogaste...

abri-te a minha porta, maria
que nunca pude fechar
sempre estiveste em mim
de dentro do limiar, enquanto
eu esperava... tu passavas...

e como ousavas, maria
como os anjos sabem ousar
enquanto... eu... aguardava...
a solidão assolou-te
ferrou-te como um tormento

como lamento, maria
não ter partido contigo
corrido à volta dum mundo
maior que este quarto imundo
onde me amarguei, só

me curti e azedei
aguardando, paciente
teu arrependimento
bateste à minha porta, maria
só, triste e infeliz

e tudo o que eu nos quero, maria
é a felicidade petiz
leva-me todo na mão
ainda que me arrastes pelo chão
não quero aguardar-te em mágoa

quero ousar como tu
meu anjo de ousadia
minha doce maria
acre doçura de gente
maria da poesia

quinta-feira, 13 de junho de 2013

...

talvez haja (ainda) um pouco de mim
em ti, talvez...

se te belisca o corpo, sou eu que não resisto
se te foge o pensamento, sou eu que insisto
se teu peito explode, sou eu que o ateio
se tens saudade de beijo, ficou em ti meu desejo
o formigueiro em teu seio, creio ser o meu anseio
e a inquietude em teu sexo,
meu amor, é lá que eu tenho meu nexo.

declaração

eu,
até já nem me importo de dar amor
porque não tenho outro modo de ser
sempre amador, sempre apaixonado
entrego um pouco de mim
a quem quiser

em teus braços

cheira-me a braços
dos teus abraços
suaves, sempre ternos
carícias
que semeias em meu corpo
como brisas
sopradas pelo carinho
poderoso
dum beijo guloso
cravado em mim
embebecido e embalado
por teus abraços
perfumado de teus braços
delicados
que me ofereceste
a que me entreguei

cheira-me a braços
cheira-me a colo e a regaço
cheira-me a mel do teu corpo
quente, em tarde de outono
de um castanho reluzente
aroma frutado, florido
tão perfumado
tão bom, forte e suave
cheira-me a braços
dos teus abraços

quarta-feira, 12 de junho de 2013

beijo

o beijo que colheste de mim
era teu, nasceu para ti
concebi-o eu
ano a ano, uma vida
de desejo, de saudade, de amor
tudo impregnei no beijo
que sempre foi teu
e em mim nasceu

terça-feira, 11 de junho de 2013

tentação

olá
meu nome é antónio
quando era pequeno rimava
rimava interminavelmente
meu nome com demónio.
era algo que me entristecia
no inverno, cinzento do dia
resignava-me à desgraça
encostado à vidraça
e rimava meu nome antónio
interminavelmente
com o que achava ser sinónimo
por isso eu pecava
em tudo o que fazia, pecava
mesmo quando não queria
eu rimava com demónio
havia sempre alguém que dizia
"antónio, és um demónio"
até a minha namorada
que à época era pequena
e parecia-me apaixonada.

eu cresci
a rima se esqueceu
deixou de ser destino meu
rimar, interminavelmente
mas continuo a pecar
pecando, pecando
não sei se sou demónio
mas ainda me chamo antónio.

sem...

sou aquela noite triste
fria, enregelada
sem paixão, sem corpo
uma noite vazia
sem estrelas e sem luar
sem oração para declamar
sem poema para rezar
sem anjo para invocar
sem musa para adorar
sou aquela noite triste
sem pensamento para elevar
tão só, este modo de estar

descolorido

descorado, um arco-íris
arqueado, dégradé acinzentado
sem sol que o ilumine
nem o raio de um luar que o faça brilhar
será sempre arco-íris
ainda que desbotado

nada

meu destino de hoje é breu
escuro, sem imagem
sem chão nem céu
sem nada e sem que eu queira
algo meu se perdeu
por isso mesmo, por onde sigo
é breu, meu destino

pensamento

dei comigo apanhando cacos
pedaços de algos, partidos, pelo chão
apanhei-os, levei-os no lixo
na partida, deixaram-me saber
poderiam ser lindos painéis
assim se define refazer (a vida)

....

a terra mãe benzeu-a
uma cruz feita de pó
abraçou-a
em sinal de boas-vindas
lembrou-lhe, então, que era pó
soube porque regressara


segunda-feira, 10 de junho de 2013

definitivamente

de quando em vez deseja-se morrer para o mundo
não que se queira morrer, claro está
nem sequer matar o mundo
nem, ainda, qualquer tipo de morte
somente se quer deixar qualquer coisa em qualquer lado
distante, definitivamente

de quando em vez apetece fugir daqui para fora
não que se queira fugir, claro está
muito menos desaparecer
nem, ainda, qualquer tipo de fuga
somente se quer deixar de conviver com algo
o queremos longe, definitivamente

de quando em vez apetece dormir eternamente
não que se queira adormecer, claro está
muito menos para sempre
simplesmente desejamos que o tempo repare tudo
ao acordarmos, definitivamente

porém, pode acontecer haver muitos de "quando em vez"
para desejar morrer, para querer fugir e adormecer
não que seja sempre, claro está
talvez, o suficiente para ilustrar a infelicidade
a nossa, definitivamente

entardecia o dia
eu o sentia, tal como eu
entardeceu
um pôr-do-sol
belo, rechonchudo, corado
morno de quente e de frescura
ideal para uma ternura
barrando um carinho.
mas meu carinho dormia
enquanto o sol desaparecia
e assim anoiteceu
noite escura como breu.

...

gasto, puído do tempo
roto
sequioso de escrita
procurando
queria um mote
que não me falasse de mim
melhor, que nada dissesse
silencioso
só eu falaria, se quisesse
o mote fez-se do silêncio
das letras mudas
que a tradição escreve
sem que se ouçam
presentes, pesam na palavra
significados silenciosos
como os não ditos
que se escapam
do puído corpo
das roturas da alma
pelos silêncios

pensamento

a pior forma de morte
é o sono de fuga
mata em agonia
adormecendo para a vida

quinta-feira, 6 de junho de 2013

dá-me lume

dá-me lume, incendeia-me
quero labaredas, revelações
sarças ardentes
queima-me de corpo e de alma
de pensamentos e emoções
incendeia-me de palavras
pecaminosas confissões
segreda-me
teu desejo fervente
e meus ouvidos ardem
ardidos, ardentes, arderão
prazer
quero lume
incendeia-me

belo canto

tua voz,
inundou-me a alma
acariciou-me o peito
segredou-me a calma
deixou-me a paz
fechou-me os olhos
dançou-me no ar
rodopiou-me
beijou-me, levemente
e partiu, com a magia
como chegou.

6ª à noite

6ª feira e não é dia 13
tomara que fosse
queria algo que acontecesse
que fosse mistério
que fosse macumba
superstição ou nada de sério
tudo o que peço
é que algo aconteça.
que caia um trovão
que venha chuvada
um sol à meia-noite
uma coisa de nada
mas que algo aconteça
logo hoje que é 6ª feira
e por mais que eu deseje
não é dia 13.

happy ending

as almas penavam e os corpos definhavam nelas
como se fossem excrescências
ou outras formas parasitas de existência.
mas não, eram corpos desolados
entregues a si mesmos
porque as almas penavam de males
que os corpos jamais compreenderiam.

era o desalento. quando a dor já não importa
e o corpo, que nada entende para além da dor,
definha de abandono e indiferença;
nada do que sente interessa.

a morte, meu velho,
essa morte medonha que te assusta
não vem hoje. talvez nem chegue.
diz-se por aí que agora se vestiu de branco
e nos sopra como um anjo. quer-se desejada.
também a morte sucumbiu ao desejo
e prefere finais felizes.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

os sons das palavras

as tuas palavras
chegam-me sem sílabas
sons completos como melodias
que cantas, sem proferir
me encantas, me enlevas
na harmonia, na leveza
como soltas
as palavras que me chegam
e não entendo
porque as ouço cantando.

ciúme

eu
que te amo
não sabia
nem sonhava
em teu peito trinava
a agonia de um ciúme
afiado
gume fino cortante
sentimento persistente
retalhante
de confianças
de estimas
dos sonhos

e eu
que te amo
mesmo ao lado
nem sabia
nem via
nem cheirava
esse ciúme
essa dor afiada

meu amor

tentei amar-te até ao fim do mundo
mas o mundo era pequeno

tentei amar-te até à lua
e sobrava tanto amor

tentei amar-te até ao sol e às estrelas
e o meu amor não cabia

tentei amar-te até ao universo
mas o espaço não chegava

então meti meu amor num olhar
e olho-te para to dar
aconchegado de carinho

segunda-feira, 3 de junho de 2013

meu desejo

deixaria cair minha cara em teu peito
aí fecharia os olhos
não que queira dormir ou descansar
só preciso sentir-te mais e melhor
e saberias como sou teu

pensamento

revoltam-se as entranhas
quando o esquecimento se apresenta como virtude

anomia da paixão

o que eu teria para ti
num lugar diferente
perto do sol
iluminado de luar
andarolávamos no rio
passeando à beira-estrada corrente
as árvores como algas
os pássaros como peixes
e os peixes como estrelas
flutuantes, prateadas
pelo luar
que eu teria para ti
se o mundo se vertesse
no peito
onde o sangue se insufla de ar
onde fervem os vulcões
onde o mar bate forte
e se entalha na areia
puro prazer de espraiar
que teria para ti
num sonho de mundo sonhado
onde os amantes se fundem
de alma, sorriso
tudo no mesmo olhar
perdidamente apaixonado
que eu teria para ti
num mundo de pura paixão
sendo essa a sua razão.

pensamento solto

que o dia te traga poesia
o melhor unguento
para dor de crescimento

sábado, 1 de junho de 2013

à vossa

embebedei-me de vós
amigos poetas
profetas da poesia

embebedei-me
das vossas palavras
do vosso peito

embebedei-me
dos vossos sonhos
dos vossos desalentos

embebedei-me
do vosso pensamento
da vossa atenção

embebedei-me de vós
e sinto-me orgulhoso
desta forma ébria
de vos sentir em poesia

pensamento

poderoso
um pensamento
silencioso
inquieto
inviolável
permanente
laborioso
produtor de ideias
construtor de ideais
rico
é pensamento
nada mais

a gente e o mar

junto à escarpa
abri os braços
precisava voar ao vento
que é o sopro do mar
sentir a aragem no rosto
no sovaco 
ser abraçado de fresco
como só vento sabe abraçar
ao som do ronco do mar
grave, longo e profundo
saído do peito que  é o mundo
a gente dá-lhe a batida
e o coração a pulsar
pum-pum, pum-pum
e o mar bateu poderoso
aspergiu-me vigoroso
salpicos de água-benta
a emoção da comunhão
junto à escarpa
um abraço de gente e de mar

sexta-feira, 31 de maio de 2013

corpo e alma

senti-me alma
presente, invisível
morada dos sentimentos
solenidade de monge
contemplativa
amor persistente.

vi-me só corpo
eriçado da emoção
calafrio
suado arrepiado
tiques de apaixonado
reflexos da paixão.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

primavera

brotam as flores
da primavera
que como se sabe não tem chão
tem ares, tem luz, tem cores
tem pássaros, músicas e amores
tem narizes no ar
mas não tem chão, isso não.

do sonho ao pesadelo

a parede fora branca
imaculada
nela pintou os sonhos
em preâmbulos do adormecer
conhecia aqueles graffitis
pequenas paixões
que lhe moldavam a serenidade
com que dormia, leve
traçado de lábios elevados nos cantos.

a parede que fora branca
ganhou bolores
perdeu-se o imaculado
os sonhos continuavam preâmbulos
e pintavam-se, por vezes
com laivos escurecidos
sem paixões
os lábios repousavam de traço leve
de cantos descidos

repintou a parede de branco
recuperando o imaculado
quando os bolores contagiaram os sonhos
que se fizeram pesadelos
também imaculados.
o que foram sorrisos
são tormentos enrugados
carcomidos pelo bolor
escolhido no tempo.

viver

saborear
cada naco do dia
o amanhecer
o entardecer
e a noite.

querer muito
o toque das mãos
o cheiro das palavras
o conforto da presença
a amizade.
dos amigos.

sentir
o peito cheio
de pensamentos ardentes
oferendas de amor
carinhos
mais carinhos.

cozinhar
escrevendo um poema
fazendo uma música
que trauteamos
e não sabemos cantar.

saber
que se renasce
da morte.

horizonte

olhar em frente
de onde vêm os aromas
de onde sopra o vento
de onde brilha o sol
que sentimos
entranharem-se no corpo
até à alma

e na paisagem
esboçam-se os desejos mais antigos
sorridentes impossíveis
que amamos até ao tutano
por que sabemos nada sermos
sem o sonho
a alma da humanidade

terça-feira, 28 de maio de 2013

onde explode o coração

sempre me disseram
que é no peito
que explode o coração
não sei se acredito
o meu rebentou na mão
quando to ia oferecer
pulsou forte e mais forte
deu um salto bem alto
quase caía no chão
de reflexo segurei-o
e tu deitaste-lhe a mão
quando tocou em ti
deu-se a explosão.

feliz

sei que o sol de hoje
nasceu para mim
dançou-me nos olhos
assoalhou-me a alma
quis-me assim
tomei-o nas mãos
só para o agarrar
encheu-me de cócegas
tive de o largar
agora que reparo
na minha loucura
sorrio de mim
inocência pura

segunda-feira, 27 de maio de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

redenção

um dia, a vida apresenta-se-nos generosa
perdoa-nos tudo
como quem se despede dolorosamente
surge-nos envolta dum silêncio de compreensão
sorri-nos carinhosamente como se fôssemos crianças

negro limpo

apaguei o quadro negro
onde expunha a último pedaço da minha vida
o texto e a equação em que trabalhei
laboriosamente de raciocínio em raciocínio
apaguei e tudo ficou negro
como um quadro limpo
pronto para novas aventuras

peregrino

prometemo-nos (diariamente)
numa cadência de oração
amanhã seremos melhores
faremos o que adiámos
seremos o que nunca fomos
prometemos, prometemos
a oração vã
como vãs são as promessas do desespero
ainda que cumpridas.

de promessa em promessa
adiamos o remorso
de não sermos quem gostaríamos

consumimo-nos dessa constância
de ser alguém melhor que nós mesmos

esse desejo vadio e indomável
que um dia apreciaremos
com a parcimónia (abençoada) do sal

no cimo da madurez.
sorriremos ao esfumar do remorso
satisfeitos de ser quem somos
escritores de orações.

sentido de um abraço

demos um abraço
sem sentido
não sabíamos
se de mim para ti
se de sentido inverso.

não nos importámos
brincámos
o sentido era outro.

sábado, 25 de maio de 2013

porque se parem os poemas?

são concebidos
de vontades
ou de espontaneidades
ficam em gestação
(uma comunhão de gravidez)
muito estímulo
muito amor
e paixão
nascem, soltam-se no ar num vagido
precisam de respirar
depois de amassados
e espremidos
estão doridos do parto
tão humano
que os fez paridos.

jogging ao sábado de manhã

caminhavam aos pares
ou pequenos grupos
passeando a solidão
não que fosse mau
parecia bom
cada um precisava estar só
com alguém
no seio da natureza.
e isso é natural.

as mulheres dos poetas

para os poetas
há dois tipos de mulheres
as que se perfumam com os elementos da paisagem
e as que perfumam a paisagem.

para os poetas
ambas são fascinantes
e as paisagens também.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

minha loucura

procuro a lucidez
pela escrita que pinto
e enxergo
um desenho colorido
forte, esbatido
o sentido que deslindo
ávido de entendimento
místico como sentimento.

desvenda-me a leitura
a loucura de mim
muito amado poema
vagido
grito pelo ar do nascido
pequena inocência
que nasceu parido.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

rabiscos de eros

tudo o que desenho é erótico
até as letras, em que me empenho
sejam só as letras deste poema
que de erótico só tem a pluma da pena
com que desenho as letras do poema
que é uma pena não seja erótico
e muito menos poema

olhos sem horizonte

olhos que pousam no chão
tão pesados da vergonha
tiram-se à luz e ao sol
enlutam-se
pelo negro-baço do pudor
esganam a alma
cinzelam o amargor
no rosto, sempre tristes
receosos
temem o coração
não pulsam, não se elevam
são olhos que rojam pelo chão

teu lugar

corpo a corpo
toque a toque
como passo a passo
toquei-te à porta
no corpo
convidaste-me a entrar
no corpo
de porta entreaberta
no corpo
por onde entrava
no corpo
que queria mais corpo
no corpo
que tínhamos nas mãos

quando entrei
já tu estavas dentro de mim

onde permaneces
de adormecer em adormecer

terça-feira, 21 de maio de 2013

pensamento solto

pura ilusão
estar num final da tarde pensando no amanhã
para além de um desperdício
estar passando um estardecer sem ser visto

o sapo da princesa

quis explicar-lhe porque não podia ver-se sem ela.
inspirou-se e buscou palavras belas que alinhou em frases hamoniosas.
gaguejou, um esboço de desespero de quem pede desculpa
e fugiu-lhe um "amo-te" de sopetão. ela sorriu, compreendendo tudo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

poetas

tem poetas de todas as cores, incluindo o branco e o preto
que não vêm no arco-íris
tem poetas de todas as formas, geométricos, angulosos, redondos, sinuosos
uns mais harmónicos, outros mais vistosos
tem poetas de vários humores, sanguíneo, militante, fleumático, irritante
uns inquietos, outros distantes
tem poetas que são escritores e tem os que não escrevem
tem poetas que são leitores e tem aqueles que não lêem

tem poetas que amam e os que se excluem aos amores e
tem os que odeiam apaixonadamente
tem poetas que rejeitam ser poetas e
tem os que se dizem sem tempo para a poesia
tem poetas só da noite e tem poetas só do dia
tem poetas de café, de casa e ainda os do trabalho

tem poetas em cabelo
tem poetas de carapuço, de chapéu e de boné
tem poetas de relógio, no bolso, no pulso ou na torre e
tem os que se regem pelo ritmo biológico
tem poetas de gravata, sem gravata e tem de laço
tem poetas de camisa, de t-shirt e tem os de cachecol

tem poetas de elite, tem poetas do povo
tem poetas de cirrose e de hepatite
tem poetas com neurose, tem poeta fumador
tem poetas perfeitos, sem vício e sem dor

tem poetas do jardim, da rua e da esquina
tem poetas da biblioteca e tem da igreja,
também tem do quarto e tem poetas do palco

tem, até, poetas da TV
tem, tem e tem...

e quem nunca se emocionou
quem não conhece o calafrio nem corou
quem nunca precisou de ler um poema até ao fim
quem nunca memorizou uma quadra
declame bem alto:
- este poema não é de mim!

(se o fez e se gostou, sentiu poeta. e amou?)

vacuidade

era um poema sem tema
que não sendo bem poema
também o tema não o era.
frente a frente poema e tema
se abarcaram um no outro
o poema encaixou-se no tema
encerrando-se o tema no poema.

domingo, 19 de maio de 2013

pensamento solto

mas há coisa mais poética
que aquilo que toda a gente tem,
que protege, que partilha e que ama tanto
que até a vive
e que dá pelo nome de vida?

sábado, 18 de maio de 2013

salto do ninho

perdoem-me os tropeções nas aves
é que ainda voo atabalhoadamente
atiro-me em frente e chamo a isso voo
atiro-me ao infinito pelo desejo de estar solto
e não ter nada a agarrar, simplesmente
caio, pairo, tropeço até aprender a planar
quando for grande hei de saber voar

sexta-feira, 17 de maio de 2013

sussurrantemente

vejo-te articular um som
que não ouço mas sei de amor
é-me bom e imagino
um repete por favor
e
ouço-te sorrir-me um beijo
enquanto me beijas em sussurro

bem-me-quer, bem-me-quer

nosso prodígio de amantes
misterioso modo, o nosso comunicar
intuimos o que entendemos
é uma voz sem som
uma imagem que temos, sem olhar
ao perto ou ao longe, tanto faz
nós sabemos
está no ar, sem lá estar
pura intuição ou coincidência
química ou uma qualquer inteligência
nosso mimo existe, vivo
onde quer que estejas
saberei sempre que me ouviste
e ouvir-te-ei sorrir que me desejas

terça-feira, 14 de maio de 2013

sodoma ou gomorra

e quando os economistas gerirem a economia
e o povo empobrecer...

e quando os juristas redigirem leis
cuja moralidade não se entende...

e quando os políticos não gostarem de povo
e não o souberem respeitar...

e quando os governos, só governarem
como ninguém quer...

e quando o cidadão aguardar
orando para que o azar não seja maior...

e quando os que sofrem
forem piegas que não se calam...

e quando o povo
se excluir de participar...

e quando a democracia
parecer não servir os povos...

e quando aos poetas nada doer
e só declamarem lírico amor...

que responderemos quando nos perguntarem
se foi isto que quisemos?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

meu fôlego

meu fôlego de rio corre espraiado
sem margens; ignoro-as e rendem-se
à inexistência do que é ignorado.
rio da fantasia - sei-me vivo.

rio em meu corpo surdindo nas veias,
curso de sangue para o calafrio
de olhos fechados, vertigem e meia
rio da fantasia - sei-me vivo!

rio corrente de inspiração, fluindo dos dedos
em rios de escrita, afluentes, efluentes,
mapeados em papel: linhas de poesia
e rio da fantasia - sei-me vivo!

meu fôlego é de rio.

cartas de amor

suplicaram-me, as tuas cartas, que as rasgasse
também elas querem ir para longe do meu alcance.
incomodamo-nos com o cheiro a pó
das emoções e dos sentimentos que carregamos;
com a cor, elas amaralecidas e eu cinzento;
com as memórias que nos invocámos,
no toque, nos vincos, no rasgão da ansiedade,
no amarrotado da raiva.
as vezes que as percorri com o olhar
e com os dedos indicador, médio e anelar
procurando nos sulcos da tua escrita
as curvas - relevos - do teu corpo.
recordo-me que algumas delas traziam o calor da tua mão
foi bom... lembro-me do que senti.

agora reconheço que querem voltar para ti
porque são tuas e estão comigo
pedem-me que as rasgue.

sábado, 11 de maio de 2013

indagação

procuro algo de diferente
nesta manhã 
algo que pronuncie o dia
os cães trocam os mesmos latidos
os pássaros chilreiam como ontem
as árvores curvam-se ao vento
dançando como sempre fizeram
só esta procura é diferente
e fará o dia único

genuíno

há mil anos que estou tecendo
um beijo
que sempre foi teu
quero dar-to texturado
daquela simplicidade de alma
a que chamamos genuíno
porque genuinamente
te amo

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ser teu

entregar-me a ti é ser teu
sem te pertencer
pronunciar-te uma parte de mim
quando de facto sou teu
pelo desejo de te alegrar até à felicidade
o que me faz feliz
é que sendo teu, somos nós

silêncios

do que falam os silêncios
de segredos
de medos e de rancores
de desejos, velhos e novos
de amores, de guerras de infiéis
e do que não se sabe dizer
do indizível
do impronunciável

o rei

era rei
o banco de jardim era o seu trono
os pombos vinham comer-lhe à mão
não que fossem seus súbditos
confiavam nele
que assolhava a felicidade
quando os amigos se aproximavam

quinta-feira, 9 de maio de 2013

sussurro

estou aqui
neste sopro de memória
que te tocou o momento
penso em ti

estou aqui
indiscreto à tua janela
pulando em pontas de pé
penso em ti

estou aqui
apanhei o olhar que perdeste
colei-o no sorriso que soltaste
penso em ti

minha ideia de amor

serei um rio
ronceiro, espraiado
procurando algo maior.
banharei minha sereia
em meu leito
minha ideia de amor
semearei dia após dia
passeando na calmaria
o sorriso húmido de rio.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

logo

anseio afundar meu rosto
em teu peito
e ali ficar
profundamente teu
ouvindo-te
sentindo-te
sem me mexer
entrar no teu respirar
embalar-me no teu pulsar
e ali ficar
aconchego
lar

segunda-feira, 6 de maio de 2013

campanário

aponta-me o lado do vento
mostra-me a sombra do sol
fala-me em badaladas
que eu possa contar
ensina-me a serenidade
que te deu uma alma
e o amor de um povo

pensamento solto

tanta poesia viva
no peito
no pensamento
nos dedos
de quem escreve
ainda que as palavras
não o revelem

domingo, 5 de maio de 2013

amor perfeito

têm os poetas um amar difícil
têm os poetas um imenso amor
enorme e profundamente dedicado
o talham com precisão de artista
o querem perfeito como a flor
e amam a flor
logo depois o jardim
e as aves
o céu e as nuvens
as estrelas
e tudo
mais as pessoas
os sentimentos
as ideias e os ideais
e os poetas entregam-se
pela paixão emergente
de amar o lado humano da vida
que talham com a perfeição do amor.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

dor

o dia da tua fuga
aticei-te a maldição e o rancor
tamanha era aquela dor (funda) de rasgão
na alma, no peito, na voz, no corpo - página a página
fiquei só capa de um livro sem nada para ler - sem nada para ver
fiquei oco, vazio dorido sem eco de nós e de ti.

abandonaste-me à solidão
de despedida rabiscada em papel
sabor amargo de fel, agonia de vida
onde conheci a cobardia
aquela que te chamei e a que preenche meu dia.
agora apanho-te no lado da cama em que não estás
o cheiro que lá encontro é teu: tem rancor e solidão.

chocolate

no caminho para o chocolate
encontrei todas as vozes da minha consciência...
rezei. não para evitar o pecado,
apenas queria leves as más consequências.
deliciar-me-ia pecar
é a nossa natureza; a minha e a do chocolate.
admirámo-nos mutuamente;
eu toco-lhe seduzido, ele derrete-se para mim.

adoro-lhe a mornidade do aroma, do sabor
e da tocadura nas mãos e nos lábios
do envolvimento doce da língua
que se move lenta e forte
como o espreguiçar, libidinoso
que a garganta recebe deliciada e ávida
rouca e voluptuosamente
aconchegada ao chocolate.

amor inesquecível, obsessão incurável
envoltura de abraço, memorável
amar-te-ei sempre, pecaminosamente
desafio da minha consciência

voo de andorinha

o dia da tua fuga foi o dia do meu encontro.
passavas num voo de andorinha
rápido, inquieto, ousado e belo
anunciador
da primavera que se aproximava num voo tardio.
esquecera-me da luz da chegada duma andorinha
e aconcheguei-te graciosa junto ao peito
onde se guardam os tesouros.

sonho

SONHAR. EM FRENTE. - apelava a placa que segui
(não sei se sonhei, se esqueci e depois lembrei)
fui andando, esperando ver a entrada num mundo de sonhos sonhados
o surreal do impossível, incandescente desejado
mas era deserto tudo o que via, nem escombros havia
e o chão só aparecia a cada passo que eu dava
a luz estava sumida e a noite não existia, tudo era vago e vago estava
aguardando ser preenchido por algo que eu não sabia o sentido
foi então que te encontrei: um ponto no meio do nada
grão de areia reluzente, pinta de poeira bem suja
de ti nasceu uma linha, curvilínea e infinita
que se encorpou e ganhou vida, se moldou e renovou
cativando meu olhar sempre que os olhos me fechavam
passavam sonos de criança, gritavam desejos de gente
preces ardentes declamadas, poesias que eram rezadas
fantasias fantasiadas e impossíveis realidades das reais possibilidades
o milagre da utopia e a utopia do milagre...
perguntei-te quem eras, que maravilhas fizeras, que querias
semeaste em meus olhos abertos tua expressão sonhada, prenhe de carinhos teus
sopraste nos meus ouvidos e eu soube: - TU ÉS O SONHO! TU ÉS DEUS!

o dia da tua fuga

tínhamos adivinhado
tínhamo-nos confessado
sem que uma palavra fosse pronunciada.
sabe-se e silencia-se: é assim que se foge
escapando pé-ante-pé, encobrindo, negando, mentindo
fugindo para a frente, apressado no beijo e no sono
indiferentes ao sim e ao não.
arrastámos os olhares pelo chão
(que a alma não nos traísse)
sorrimos de pânico que algo se descobrisse.
desconhecíamos e adivinhávamos
a moinha doeu, rasgou, sangrou.
corpos doridos posados à janela
qual ponto de fuga, perspectiva
linha da vida que passava lá fora
e como fora bela, recordámos
que nostalgia, de mãos apertadas de réstias.
porque tudo era vago, tudo escapou
o dia da tua fuga...
já tinhas partido e eu já te tinha largado
o relógio parou-me e o tempo conto-o sem peito
minha alma fugiu atrás de ti.

liberdade

liberdade é paixão no feminino
sedução de amante, irreverente e fascinante
define-se a si mesma, é incomparável
sem diminutivos, sem aumentativos
senhora, menina, mulher
é rebelde e vadia
sorriso e gargalhada de todos
solta no ar, na terra e no mar
morrerá na gaiola do pássaro belo.
se a víssemos flor seria colorida, garrida
caule espinhoso para lembrar
como a papoila morre se colhida.

liberdade é partida, é chegada
é corte da amarra e laço concebido na caminhada
é cumplicidade
estuário de rio desenhado pela terra e pela água.

liberdade é dia-a-dia
brisa no corpo, sol no rosto, olhar voador
é força no peito, vento no pensamento
emoção de lágrima, grito e rouquidão
voz trémula de entrega
é sonho livre, livre e mais livre
recreio de crianças
utopias rodando de mão na mão
filhas da liberdade.

era uma vez...

era uma vez... tu nascias
eu via-te nascer, devagarinho
porque os momentos bons
vêem-se e revêm-se devagarinho

era outra vez... tu crescias
eu dava-te um dedo e tu querias andar
fugindo de mim para eu te apanhar
eu dava-te colo, aconchegavas o corpo
ficavas, rias, gostavas e dormias

era também uma vez... eras maior
querias ser grande e compreendido
exageravas tua leitura de umbigo
eras corajoso, eras voluntarioso e eu sorria
e decidia se ficaria ou se te acompanharia

era uma vez, ainda... parecíamos iguais
homens discutindo a vida pelos jornais
vivendo o tempo, fazendo pensamento
sendo adultos e nada mais

era mais uma vez... tu eras homem
eu estava cansado, podia apreciar-te
orgulhar-me de ti e adormeci
feliz pela felicidade de poder amar-te

era uma vez uma história do mundo
feita de vidas sem grandes feitos
só com enormes momentos

poesia

tu, aguarela que te pintaste em minha alma
colorida, abusas de mim ocupando-me como
amante, pecado que preciso, obsessão, deleite, poema
que sonhamos, linhas que tricotamos em palavras
que geramos, como pais de uma gramática
concebida no enamoramento de quem se prometeu.
por vocábulos nos fundimos à ação e ao destino
(porque até o hífen, sendo elo, nos separava)
nos refazemos num "amote", num "querote, até "odeiote"
"desejote", "sintote", "escrevote", "leiote" por uma lei da natureza, nossa.
tu, o início de tudo
jorras nas minhas veias o que apelidas de inspiração
que sinto como pensamentos inquietos que me explodem no peito
em torrentes de emoção e que me aflora aos olhos, aos dedos
e desenho escritos como melodias, pautas, músicas de poesia
transpirados de lágrimas, de sangue e de calafrios
êxtases medonhos de exaustão e delírios de felicidade
pelo poema terminado e pela inquietante busca do próximo.
tu! tu! tu! exclamação, desejo, exaltação, exagero exagerado
paixão, arrebatamento...

tu, encantamento, milagre, magia, pureza
força e fragrância doce e pura, pueril beleza,
poesia que moldaste minha vida e criaste meu ser
partilhamos um destino que escreveremos, rabiscando e rasurando
como tu e eu sabemos.

olhos de uma manifestação

teus olhos inteligentes, atentos
alertaram para o que não se vê nem se fala
e para o que o medo não deixa pensar.

teus olhos honestos têm tudo
e acima de tudo têm dignidade
por ela lutam e não a trocam por caridade.

teus olhos têm razão
envergonhamo-nos, fomos descuidados
confiamo-nos a uma partidarice de ismos.

teus olhos saíram à rua
sem profeta e sem deus, glosaram a democracia
no tom de uma canção de povo de bom coração

teus olhos sabem de Camões a força da poesia
persistência e tormentos
depois das descobertas far-se-ão os descobrimentos.

teus olhos, quero olhar teus olhos
liberdade, por natureza indignada
jovem ausente emigrada, voluntariosa poção
anti crise, poesia, povo feitor de utopia
forma humana de viver.

ao pai que nunca vi

cheguei, chego ou chegarei hoje à meia idade
tu como sempre, estás ausente:
a tua forma de presença, a tua celebridade e a minha recordação.
lembro-te como um messias
aparecerias, um dia, e tudo se mudaria
tu virias e eu deixaria de sentir aquela réstia de desconforto
nos colos, nas mãos, nos olhares que pressentia não serem meus
eram de alguém e eu usava-os como um trapo em segunda mão
rompia-o e gostava,
sabendo não ser feito nem comprado a pensar em mim.
e tu chegarias (acreditava) e eu procurava, aguardava
meu pai (meu) para mim.
hoje entendi a rima do teu estado:
tu, presente, ausente, silente
e não creio, queiras ser procurado
e eu quero sentir (minhas) as ternuras e os mimos
feitos à minha medida, por quem lê nos meus olhos a necessidade
e no meu peito o reconhecimento, tão terno quanto eterno.
hoje, abandonarei a minha incessante procura
encontrar-te-ei: no mar e no vento
nos olhares, nos abraços, nos risos e nos sorrisos
oferecidos pela minha gente, tão diferente de ti,
que (só foneticamente) rima com teu estado:
presente, ausente, silente...
pai... sem ressentimento.

adeus

chegou o momento, meu amor
adiei a escrita desta linhas
adiei até não poder mais
e agora falta-me tudo
até a coragem para te escrever

impulsiona-me a necessidade
tua e minha,
a única coisa que temos em comum,
de te sentir livre
sem desilusões, sem mágoas
levarei comigo o que de ti não consigo,
talvez não queira, deixar:
o teu sorriso e o teu olhar
com que me falavas
sem articular uma única palavra.

e toda a coragem que encontro
gasto-a
num último relance pelo horizonte,
num último adeus
articulado em silêncio.

à aventura

l.
o que de bom o dia tem
nem eu sei bem
só sei que chama por mim
como se eu fosse seu fim
e o que lhe vou responder
nem sei se irei saber
porque o que o dia me quer
é um capricho de deus.

ll.
sentei-me na minha cadeira
amei a minha janela
pulei das pontes para os montes
percorri longínquos sem fim
fui onde deus me chamou
andei onde a liberdade me levou
e quando regressei
montado num fim de tarde
recordei, tudo o que falei
tudo o que sonhei
e o meu dia continuou
feliz por nos encontrarmos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

tentação

no caminho para o chocolate encontrei todas as vozes da minha consciência...

terça-feira, 30 de abril de 2013

pensamento

tirassem a poesia a um poema
restaria um amontoado de palavras
jamais lidas, ilegíveis
que o vento não levaria...

segunda-feira, 29 de abril de 2013

'

decidimos
não dar nome ao que sentimos
fizemos
a razão de sabermos a mar.

somos a praia
areia e mar
somos corpos
que se fundem sem se misturar
suados, salgados
sabem a mar
abençoados
infinitos
como o luar
feito de sol e de lua
eternamente
como o sentimento
que geramos de emoções e momentos.
somos a pintura
a tela e a tinta
obra, criação
areia onde me deito
mar onde mergulhas
marulhamos
numa linha indefinida
pela métrica do respirar
murmuramos
sabemos a mar.

domingo, 28 de abril de 2013

tentação

assim
tremendamente nua
tu e a lua
desafiaram-me a sonhar
tu pelas sombras do corpo
a lua pelo luar

sorriso de amor

quem ama cresce, grande
belo como o balão, colorido
leve  como uma nuvem, redonda
azul como um céu, limpo
enorme como o sorriso de amor

feito de luz e de olhar
sabor a beijo, dedicado
delicioso de ver
enorme de sentir
como sol

entra pelos olhos
irradiante no peito, aquece o corpo
membro a membro se distende
gigantemente abraça o mundo
tão pequeno como o universo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

sorri-me

o sorriso, o teu sorriso
amo pelo teu sorriso
por mor dele existem todas as coisas,
as mais lindas do mundo.

limites do amor

amo até onde o coração me deixa
assim pensei anos a fio
depois meu peito dilatou-se como uma onda
sem medida, para fora dos seus limites
agora amo até onde o mundo me quer

quarta-feira, 24 de abril de 2013

olhos molhados

lá, onde os olhos choram
pousam mágoas
ardem iras
pulam alegrias
bolorecem tristezas
e brilha o sol
aquele do olhar radiante
molhado de felicidade
como as manhãs dos jardins

terça-feira, 23 de abril de 2013

arco-íris

todos os dias teimo, teimosamente
dizendo aos que me contam a vida
em tons de dor e sofrimento
que sendo o cinzento uma cor
há mais cores que o cinzento

quarta-feira, 17 de abril de 2013

força da poesia

na releitura se encontra o prazer num poema
(algures entre a 3.ª e enésima visita)
quanto mais rico, o escrito, mais se vai descobrindo
mais se vai caminhando na imaginação do escritor
mais se vai desvendando o leitor, a cada leitura
este caminho comungado é a força da poesia