segunda-feira, 9 de setembro de 2013

fazemos amor como loucos
é uma loucura, o nosso amor
ouvi ou li que só os loucos amam
os outros não desmancham e cama
e nunca engelham os lençóis

meu sonho

meu sonho, sempre grande
enquanto aprendia as letras sonhava
com irreconhecitude da minha caligrafia de adulto
enquanto aprendia a ler sonhava
com grandes públicos atentos
enquanto aprendia as outras matérias sonhava-me
mestre nas habilidades científicas, literárias e artísticas
...
enquanto escrevo um poema, sonho
com o convívio das nossas fantasias
enquanto escrevo um poema, sonho a fantasia
e por ele distendo meu sonho entre o aqui e o de lá

chove lá fora
pois, deixa chover
o sol cá de dentro espelhará
na chuva que sempre tropeça
nessa vidraça
e escorre pelo olhar, brilhando
ente o reencontro e a despedida

a ansiedade

tem um corte fatiado
fininha, meticulosa
insistente, persistente e fria
fria até aos suores; frios também
rói, moi, corroi
de um vazio transparente e solene
aloja-se entre os dentes cerrados
no franzido do rosto
no lado apertado do corpo
contraído até ao estalido
no estado dorido
da ansiedade

consome o bom dia
amarelece o sorriso
cheiro frio a perfeição
do mofo organizado
o mais perfeito pecado
a ansiedade

domingo, 8 de setembro de 2013

hoje quero meu dia botando fogo
fogo de língua
fogo de labareda
fogo de sol quente
tudo fogo amarelo, vermelho, luminoso
fogo quente de verão
hoje quero meu dia assim
enquanto eu sinto o fresco
do verde do meu jardim

sábado, 7 de setembro de 2013

mealheiro de rios

havia no mealheiro
o necessário para ter um rio
daqueles que chapinam, que nos ouvem
que se fazem ouvir e falamos
um rio rico e brilhante de prata bem limpa
um rio amigo que correria comigo até ao mar

naquele mealheiro eu guardava,
o sonho que sempre recordava
a cada moeda que lá amealhava

havia naquela mealheiro
o necessário para ser rio

tinha tanto de morte em mim que a vida se mudou por falta de espaço e eu morri.
equilibrei as as coisas, enxotei a morte, a vida regressou e fui renascendo.
então renasci.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

cumplicidade

pesquei um poema espelhado
no rio que te banhava
há tanto tempo que não desamo de ti
cintilou o rio
eu escrevi

traço de poesia

desenhei-te em traço de poema
vi-te à essência de ti mesma
envolvi-te em fantasia
daquela que me insinuaste
e te soltaste um beijo
um olhar
um sorriso
um abraço
um aceno
uma flor
...
tanto faz
ser-me-ás poesia

um desejo

tivera eu
um beijo teu
que o dia seria meu
o estardalhaço que faria, eu

fantasia

é frágil a vidraça da minha janela
por ela viajam os sonhos
ainda que feche as portadas
e tenha as cortinas cerradas

rio

o rio
para onde rio
riou-nos
sorrimos
as rimas
que rimos
tu ria(s)
eu ria
ainda rio
na beira do rio

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

dia

dia de tirar a respiração
inspiramos, inspiramos
queremos tudo, tudo dele
e guardarmos, bem para nós
soltos no suspiro
duma memória doce do horizonte

a luz que era da vela
fez a vela ser da luz
de outro modo não se veriam
uma e outra se pertenciam

minha alma bastarda seduz,
seduzida que vive por todo o desconhecido

conjugação

pela manhã deste-me um beijo
fresco de crocante e suculento, tudo junto,
bem polpudo como sempre
— logo dou-te mais — declaraste-me
— bommm, guarda-mos — pedi-te eu
— beijos não se guardam, dão-se 
dão-se sempre frescos, acabadinhos de sentir
querem-se aromatizados — ensinaste-me
então e aqueles apressados — indaguei
— são rápidos, são pequeninos — continuaste-me 
mas para serem beijados, têm de ser frescos
se recessos não são beijos
nem ósculos serão, que nem esses são ressequidos.
isso de que falas são tiques em molde de beijo
outras vezes são desfeitas
amordaçam e despeitam os agredidos.
beijo não cabe em "tupperware"
nem se conserva em frigorífico
beijo tem, sempre, aroma do momento
— e dos beijos que te dei — balancei
— foi nos teus beijos que aprendi o que sei — sorriste-me
no teu peito nasce a poesia que escrevo — escrevi —
... ainda que me chames poeta

poeta espécime

poeta, só existe no estado independente
e nem da independência se torna refém.
é arisco, indomável e errante
transviado por natureza
solta poemas: assinala o caminho
que não o siga quem gostar do conforto

a poesia tem a beleza da aventura
vive de trepar o impossível e de pairar o infinito
e morre nos círculos das rotinas
por aí não há poetas

angústia

todos os dias sinto a infelicidade
de uma folha branca, de uma janela vazia
aguardando
que nela me verta que nela eu encontre
o sentido tresmalhado do dia

terça-feira, 3 de setembro de 2013

trajetos da tarde

i
não sou nada, por isso
quando olho pela janela
só encontro meu reflexo
todo o resto, eu invento

ii
destino de homem
que se foi fazendo bicho
é bicho-homem
corpo de homem
alma de bicho;
indistinto bicho

iii
a metafísica, a filosofia
e uma certa poesia
são modos de procurar
a felicidade
em dias de mau-humor

iv
ai,
como eu tenho algo para te dar...

v
vejo uma flor que cresce do chão
estica-se, balança-se, aproxima-se
o chão ajuda-a e eu sorrio-lhes
pateta da emoção...
não sou nada... nada...

vi
a primavera escreve-se nas árvores
e também nas flores
livros estampados de paisagens
com o mar, sempre o mar,
ao fundo
para onde todos os rios correm

vii
as folhas
amarelas-castanho de morno e de sol
libertam o outono
dançam ondulações de mar
(ainda o mar)
unem-se sem capas, algumas enrolam-se
outras rebolam, livres, porque é solta a poesia

viii
os amantes, como poetas, assinam nos troncos
querem a perenidade de um epitáfio

pé-de-orelha

puxa minha orelha
e lá encontrarás o último segredo
aquele que lá deixaste
ouço-o todos os dias

aventura

de todas as vezes que saí empenhei algo de mim
investimento na viagem iniciada para um incerto
visto como certo, de tão crentemente desejado
empenhei-me de todas as vezes que parti
levava numa mão a amargura; do errado
na outra, a convicção
trilhei em frente, fitado no horizonte
aquele mesmo que um dia libertei da linha

Só o mistério chega inteiro ao fim.*
e desvanece-se
solta o vazio


*Almada Negreiros; in Textos de Intervenção


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

poeta d'água

poeta faz-se de água
nasce em água de útero
espraia-se em água de rio
vagueia em água de nuvem
escorre em água de chuva
renasce em água de mar
brota água de lágrima

beira-mar

cada onda volta uma folha
era o mar.
o vento
a inspiração da página seguinte
gravura prateada a sol.
o poema
o voo da gaivota, sempre gandaio
desenho dos ventos de poesia.

ainda o mar
na melodia de fundo
ao grito de gaivota que declama o poema
que a areia e a rocha aplaudem
enquanto a criança pequena
planta castelos na areia
que o mar os abrace
e o sorriso lhe aparece
então o poeta tece inutilidades.

leve

aprecio o nado dos peixes
aprecio o voo das aves
aprecio a leveza de ter os pés ao nível da cabeça

domingo, 1 de setembro de 2013

manoel

com quantos pássaros se escreve teu nome
que letras se usam para pintar o céu
quantos desenhos tem um poema
com que revelas segredos a deus
desrimando
rumando à poesia que quer ser criança
fantasia
sem "quantos" nem "comos"

a praia de todos

ela, a praia
nascera dele, o mar
e dela, a areia
é amada por eles, as gentes
que nela arejam os corpos
assolham a alma
exibindo o que têm
ora exuberantemente
ora em absoluta discrição
como ela, a praia
de todos, os momentos

amores

amor é doçura do tempo que chega em alguém, com a forma de vida
amor é uma ideia amadurecida em peito sonhador
amor é aquele colorido num arco do vento
amor é o cristalino da água na concha das mãos

meu futuro foi ontem, correu no pôr-do-sol
hoje foi passado que me chegou de presente

desconcertante

o sol partiu de manhã
agora que é tarde, ainda não veio
há bocado, que era noite, fez-me tanta falta